I
- Aposto que você não sabe o que fazer agora - o tom dela era desafiador. Esperava uma reação brusca. Não, não esperava. Ela desejava uma reação brusca; afinal, há muito gostaria que alguém esfregasse suas costas numa parede até fazê-la sangrar.
- Faço o que você quiser que eu faça - ele respondeu, olhando o piso velho.
- Não tenho mais paciência para isso. Vou contar até dois antes de me levantar e sair por aquela porta para nunca mais voltar - ela vociferou, enquanto puxava a cortina para deixar o sol entrar.
- Três.
- O que?
- É até três que se conta - ele sorria, patético.
Ela pegou a bolsa, jogou as chaves em algum canto do cômodo bagunçado e abriu a porta. A claridade a cegou.
II
Ele não sabe o que fazer com as mãos. De qualquer jeito, tropeçando, corre atrás da sombra e tenta apalpá-la. Só os tolos querem tocar sombras, almas e poesia, ela pensava, adivinhando o gesto desesperado do homem atrás de si. De qualquer jeito, sem saber para onde olhar, surpreende-se quando ela para de repente, vira-se e o empurra até o sofá mais próximo.
- Deixa eu soprar trovoadas no seu ouvido? - perguntou, sedutora.
Ele devia aproveitar aquele momento para vomitar indecências no seu ouvido. Era a hora de agarrá-la pela nuca até que se ajoelhasse em penitência. Por todas as noites que ela o fizera chorar. Por cada canção desafinada que ouviu em pensamento. Por cada ferida em brasa que ela provocara. Por todas as vezes que. Assim, sem mais nem menos, de tantos ques existentes, de tanta fúria engasgada. Não importava que ela parecesse indefesa. Era isso que passava pela sua cabeça, enquanto ela esperava uma resposta, despindo-o aos poucos, em morte lenta, com os olhos faiscantes. Ah, como ela odiava essa mania que ele tinha de considerá-la indefesa! Não importava que ele parecesse perdido, ela já não podia mais esperar. Guiou a mão inocente até preenchê-la com o seu cabelo solto, com sua volúpia e com todas as cartas idiotas de amor que nunca seriam enviadas. Ele devia aproveitar aquele momento para pedir perdão por todas. Por todas e ainda as que estariam por vir. Por aquele pau duro latejando à espera daquela língua. Por não ser forte o bastante para juntar letra com letra, mão com cintura, boca com boca e, assim, do jeito que ela queria, se desculpar. Não que ela soubesse exatamente o que queria, mas sabia o que não queria mais. Não queria mais deixá-lo esperando. Não queria perder a chance de se tornar inesquecível. Abriu o zíper e despiu-o às pressas. Língua, espasmos. Desejo, desculpas. Acho que se eu não tirar os olhos dele vou ser sua última assombração para sempre, ela brincou, em pensamento.
III
- O que está fazendo? - ele perguntou, ainda sôfrego, ainda suado, ainda insaciado, ainda devedor, ainda tudo.
- Vou embora.
Você não pode fazer isso comigo, ela leu na expressão daquele rosto que a mirava. Era só o que lhe faltava, é claro que ela podia fazer tudo o que queria! Podia roubar estrelas, desfalcar tempestades, moder travesseiros e se jogar da ponte. Não importava mais todo aquele desejo. Ela queria que ele a pegasse, rasgasse suas verdades, fizesse ferver seu sexo molhado e conseguisse encaixar seus corpos do jeito que nunca havia conseguido combinar palavras, atos e omissões. Era tarde, embora o sol ainda brilhasse. Era tarde, ainda que ela quisesse ficar.
- Não pode fazer isso comigo - ele repetiu, sem se mover, com a certeza absurda dos que não esperam por surpresas.
- Olhe para você. Eu não caibo no seu colo. Não caibo em você. Não tenho mais espaço nem mesmo em mim.
- O que você quer que eu faça? - ele parecia começar a se preocupar.
- Quero que me pegue pelo cabelo, me coma com a janela aberta, decore cada pinta que encontrar pelo meu corpo e me faça entender o que me recuso a ouvir. Quero ver a luz iluminando teus olhos e que teus gemidos contidos explodam até o outro lado da rua. Quero que engasgue com nossa saliva e que marque meu corpo com suas digitais. Quero olhar cada um dos seus fantasmas escorrendo pelo ralo do banheiro só para ter a certeza de que somos, enfim, só nós dois.
- Você é louca...
- Foi o que pensei.
IV
Bateu a porta com força. Ele ainda pensou em gritar seu nome, dizer que ela havia esquecido seu perfume no seu corpo, sua inicial nas suas entranhas, seus dedos entrelaçados nas suas mãos, enquanto a via atravessar a rua correndo, pela última vez, deixando para trás as certezas absurdas num apartamento cheio de um vazio deles dois.


