[Esperança é uma puta de quinta categoria vestida com roupas costuradas de retalhos dos meus sonhos. Uma vaca oferecida colada na minha sombra à espera de um tropeço meu nas ruas de paralelepípedos. Esperança tem inveja da minha meia calça desfiada e do meu rímel borrado que dão a sensação de noites bem aproveitadas em meio a línguas, membros suados e esquecimento. Esperança é barata demais e se oferece em postes onde me esfrego, ele me esfrega, nós nos esfregamos, deixando grudadas marcas de unhas e gozo. Esperança se alimenta dos restos que deixo pelo caminho. De tão faminta, me compadeço dela e a deixo ficar. É quando ela começa a me corroer como se fosse um verme invisível, sugando meus desejos para si e me devolvendo este vazio que uso como acessório no cabelo. Esperança me cega com seu falso brilho e eu invento óculos que não escondem as letras que deixo escorrer. Esperança me fode inteira como se eu fosse uma virgem idiota que se apaixonaria pelo seu algoz. E ela consegue. Esperança me mantém de quatro enquanto vejo mar azul e não me atrevo a molhar os pés, enquanto ouço sinfonias inacabadas e permaneço rouca demais para gritar meu refrão. Esperança me amordaça e me amarra até fazer sangrar meus punhos, talvez desejando que eu agradeça por tê-la tão perto de mim. Esperança é uma vadia insensível que não consegue entender que assim que conseguir me desamarrar, vou tomar o seu lugar. Ao invés de ser qualquer coisa entre amiga e desconhecida, faz questão de me manter cativa, e isso só aumenta meu desejo de ser minha própria Esperança, ocupar seus postes e enterrá-la no sótão das minhas lembranças, misturada aos amores que não me servem mais e de onde nunca mais sairá para aproximar-se de mim]
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
[Sugestão]
Sinto que preciso compartilhar uma coisa com o mundo.
Perguntei a uma coordenadora por que, ao invés de gastar seu tempo útil implicando com minha pessoa, ela não ia tentar ter um orgasmo de verdade, com um pau de verdade, fazendo sexo de verdade.
Pronto. Agora me sinto bem melhor.
Podemos continuar.
Perguntei a uma coordenadora por que, ao invés de gastar seu tempo útil implicando com minha pessoa, ela não ia tentar ter um orgasmo de verdade, com um pau de verdade, fazendo sexo de verdade.
Pronto. Agora me sinto bem melhor.
Podemos continuar.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
[Pai de V.]
Pai de V. foi chamado graças ao número alarmante de faltas que o filho ostenta na reta final do campeonato. Para que todo o processo seja entendido, preciso dizer logo que V. é o alvo de onze entre dez meninas da sua classe. Pois bem. Mãe de V. só deu o ar da sua graça uma única vez. Nas outras, enviava representantes que não necessariamente a representavam, haja visto que nem pertenciam à família e, portanto, não sabiam nada sobre V. Então tiveram a idéia [descabida, ultrajante] de convocar o pai da criatura.
Pai de V. apareceu e não se intimidou com o fato de estar numa posição de destaque numa mesa rodeada de pessoas que questionavam faltas e atrasos do seu filho. Pai de V., muito bem articulado verbalmente, expôs argumentos que justificavam os atrasos da criatura, ao mesmo tempo em que pedia para chamar o menino, pois se conseguia justificar os atrasos, queria explicações sobre as faltas. Pai de V. disse que tomou para si a responsabilidade de ficar com V. e o irmão porque, veja só, Mãe de V., muito liberal, não impunha limites aos meninos. Não sei quem teve a idéia [descabida, ultrajante] de chamá-lo, mas notei que uma comoção [coletiva-feminina-uterina] tomou conta do ambiente tão logo Pai de V. apareceu e a coisa só foi crescendo conforme ele falava da importância de manter os meninos consigo, pois consegue estar de olho no que fazem e com quem andam, conforme ele explicava que Mãe de V. fazia questão de colocar os irmãos contra ele e, principalmente, conforme Pai de V. ia se sentindo mais à vontade para, por exemplo, pôr as mãos [descabidas, ultrajantes] sobre a mesa.
Tão pueris quanto menininhas afoitas diante de um brinquedo [descabido, ultrajante], o mulherio fez chegar até mim um bilhetinho escrito às pressas, em tortas linhas e tremidas letras, no qual li um putaquepariu, [P], que pai é esse? que, obviamente, me fez rir fora de contexto e parecer a doida mais varrida da sala. Eu não sei se você sabe, mas invariavelmente sou a doida mais varrida do meu bando. E também não sei se já sabe, mas sou a consultora sentimental oficial no meu trabalho. Assim, não que eu tenha dado um jeito na minha própria vida sentimental, mas as pessoas marcam consultas, me param nos corredores, dizem que vão cometer uma loucura e aprovar os reprováveis e lá vou eu explicar que não é desse jeito, que isso, que aquilo, que tal roupa não é apropriada, que talvez sem calcinha seja mais conveniente, que nada de parecer um bicho pegajoso-grudento-sufocante, etc etc etc, de modo que respondi um deve ter mulher, é gay ou não é deste plano no bilhetinho furtivamente enviado por baixo da mesa.
Então Pai de V. ia se preparando para sair quando foi questionado sobre sua relação com a mãe dos meninos. Creio que ele próprio tenha percebido a comoção [coletiva-feminina-uterina] que provocara ao pronunciar a palavra mágica ex e dizer que a dita cuja fica enfurecida quando se refere a ele, falando para V. que não o quer com o umbigo encostado num balcão tal qual o pai, ao que ele responde que, graças ao seu umbigo, ela fez faculdade e tem hoje uma profissão. Foi exatamente neste momento que alguém fez uma referência ao umbigo do homem e eu engasguei com a Coca Zero, ou com o pedaço de bolo de banana, ou com o umbigo, ou com tudo junto, de modo que Pai de V. se comoveu com o desespero [coletivo-feminino-uterino] das que queriam me fuzilar por acharem que a coisa evoluiria até chegar à extrema necessidade de uma respiração boca a boca.
O panorama atual segue aquela regra [descabida, ultrajante] de mulher-loba-da-mulher, onde o instinto individual berra mais alto, a ponto de ter feito V. me parar no corredor para dizer que já não sabe mais o que fazer para agradar às outras, já que elas vivem o ameaçando com a velha história de chamar seu responsável [o descabido, o ultrajante, a.q.u.e.l.e mesmo]. Tento confortá-lo, alegando que seu comportamento é outro, suas faltas estão sendo supridas e seus atrasos desapareceram, de modo que não há uma justificativa [coletiva-feminina-uterina] para que seu responsável seja chamado. A não ser que eu engasgue novamente, completo.
[Eu devia vender idéias - descabidas, ultrajantes - a granel e parar com esta coisa de levar a vida honestamente...]
Pai de V. apareceu e não se intimidou com o fato de estar numa posição de destaque numa mesa rodeada de pessoas que questionavam faltas e atrasos do seu filho. Pai de V., muito bem articulado verbalmente, expôs argumentos que justificavam os atrasos da criatura, ao mesmo tempo em que pedia para chamar o menino, pois se conseguia justificar os atrasos, queria explicações sobre as faltas. Pai de V. disse que tomou para si a responsabilidade de ficar com V. e o irmão porque, veja só, Mãe de V., muito liberal, não impunha limites aos meninos. Não sei quem teve a idéia [descabida, ultrajante] de chamá-lo, mas notei que uma comoção [coletiva-feminina-uterina] tomou conta do ambiente tão logo Pai de V. apareceu e a coisa só foi crescendo conforme ele falava da importância de manter os meninos consigo, pois consegue estar de olho no que fazem e com quem andam, conforme ele explicava que Mãe de V. fazia questão de colocar os irmãos contra ele e, principalmente, conforme Pai de V. ia se sentindo mais à vontade para, por exemplo, pôr as mãos [descabidas, ultrajantes] sobre a mesa.
Tão pueris quanto menininhas afoitas diante de um brinquedo [descabido, ultrajante], o mulherio fez chegar até mim um bilhetinho escrito às pressas, em tortas linhas e tremidas letras, no qual li um putaquepariu, [P], que pai é esse? que, obviamente, me fez rir fora de contexto e parecer a doida mais varrida da sala. Eu não sei se você sabe, mas invariavelmente sou a doida mais varrida do meu bando. E também não sei se já sabe, mas sou a consultora sentimental oficial no meu trabalho. Assim, não que eu tenha dado um jeito na minha própria vida sentimental, mas as pessoas marcam consultas, me param nos corredores, dizem que vão cometer uma loucura e aprovar os reprováveis e lá vou eu explicar que não é desse jeito, que isso, que aquilo, que tal roupa não é apropriada, que talvez sem calcinha seja mais conveniente, que nada de parecer um bicho pegajoso-grudento-sufocante, etc etc etc, de modo que respondi um deve ter mulher, é gay ou não é deste plano no bilhetinho furtivamente enviado por baixo da mesa.
Então Pai de V. ia se preparando para sair quando foi questionado sobre sua relação com a mãe dos meninos. Creio que ele próprio tenha percebido a comoção [coletiva-feminina-uterina] que provocara ao pronunciar a palavra mágica ex e dizer que a dita cuja fica enfurecida quando se refere a ele, falando para V. que não o quer com o umbigo encostado num balcão tal qual o pai, ao que ele responde que, graças ao seu umbigo, ela fez faculdade e tem hoje uma profissão. Foi exatamente neste momento que alguém fez uma referência ao umbigo do homem e eu engasguei com a Coca Zero, ou com o pedaço de bolo de banana, ou com o umbigo, ou com tudo junto, de modo que Pai de V. se comoveu com o desespero [coletivo-feminino-uterino] das que queriam me fuzilar por acharem que a coisa evoluiria até chegar à extrema necessidade de uma respiração boca a boca.
O panorama atual segue aquela regra [descabida, ultrajante] de mulher-loba-da-mulher, onde o instinto individual berra mais alto, a ponto de ter feito V. me parar no corredor para dizer que já não sabe mais o que fazer para agradar às outras, já que elas vivem o ameaçando com a velha história de chamar seu responsável [o descabido, o ultrajante, a.q.u.e.l.e mesmo]. Tento confortá-lo, alegando que seu comportamento é outro, suas faltas estão sendo supridas e seus atrasos desapareceram, de modo que não há uma justificativa [coletiva-feminina-uterina] para que seu responsável seja chamado. A não ser que eu engasgue novamente, completo.
[Eu devia vender idéias - descabidas, ultrajantes - a granel e parar com esta coisa de levar a vida honestamente...]
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Tudo Acontece
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
[Sem Olhar Para Trás]
I
- Aposto que você não sabe o que fazer agora - o tom dela era desafiador. Esperava uma reação brusca. Não, não esperava. Ela desejava uma reação brusca; afinal, há muito gostaria que alguém esfregasse suas costas numa parede até fazê-la sangrar.
- Faço o que você quiser que eu faça - ele respondeu, olhando o piso velho.
- Não tenho mais paciência para isso. Vou contar até dois antes de me levantar e sair por aquela porta para nunca mais voltar - ela vociferou, enquanto puxava a cortina para deixar o sol entrar.
- Três.
- O que?
- É até três que se conta - ele sorria, patético.
Ela pegou a bolsa, jogou as chaves em algum canto do cômodo bagunçado e abriu a porta. A claridade a cegou.
II
Ele não sabe o que fazer com as mãos. De qualquer jeito, tropeçando, corre atrás da sombra e tenta apalpá-la. Só os tolos querem tocar sombras, almas e poesia, ela pensava, adivinhando o gesto desesperado do homem atrás de si. De qualquer jeito, sem saber para onde olhar, surpreende-se quando ela para de repente, vira-se e o empurra até o sofá mais próximo.
- Deixa eu soprar trovoadas no seu ouvido? - perguntou, sedutora.
Ele devia aproveitar aquele momento para vomitar indecências no seu ouvido. Era a hora de agarrá-la pela nuca até que se ajoelhasse em penitência. Por todas as noites que ela o fizera chorar. Por cada canção desafinada que ouviu em pensamento. Por cada ferida em brasa que ela provocara. Por todas as vezes que. Assim, sem mais nem menos, de tantos ques existentes, de tanta fúria engasgada. Não importava que ela parecesse indefesa. Era isso que passava pela sua cabeça, enquanto ela esperava uma resposta, despindo-o aos poucos, em morte lenta, com os olhos faiscantes. Ah, como ela odiava essa mania que ele tinha de considerá-la indefesa! Não importava que ele parecesse perdido, ela já não podia mais esperar. Guiou a mão inocente até preenchê-la com o seu cabelo solto, com sua volúpia e com todas as cartas idiotas de amor que nunca seriam enviadas. Ele devia aproveitar aquele momento para pedir perdão por todas. Por todas e ainda as que estariam por vir. Por aquele pau duro latejando à espera daquela língua. Por não ser forte o bastante para juntar letra com letra, mão com cintura, boca com boca e, assim, do jeito que ela queria, se desculpar. Não que ela soubesse exatamente o que queria, mas sabia o que não queria mais. Não queria mais deixá-lo esperando. Não queria perder a chance de se tornar inesquecível. Abriu o zíper e despiu-o às pressas. Língua, espasmos. Desejo, desculpas. Acho que se eu não tirar os olhos dele vou ser sua última assombração para sempre, ela brincou, em pensamento.
III
- O que está fazendo? - ele perguntou, ainda sôfrego, ainda suado, ainda insaciado, ainda devedor, ainda tudo.
- Vou embora.
Você não pode fazer isso comigo, ela leu na expressão daquele rosto que a mirava. Era só o que lhe faltava, é claro que ela podia fazer tudo o que queria! Podia roubar estrelas, desfalcar tempestades, moder travesseiros e se jogar da ponte. Não importava mais todo aquele desejo. Ela queria que ele a pegasse, rasgasse suas verdades, fizesse ferver seu sexo molhado e conseguisse encaixar seus corpos do jeito que nunca havia conseguido combinar palavras, atos e omissões. Era tarde, embora o sol ainda brilhasse. Era tarde, ainda que ela quisesse ficar.
- Não pode fazer isso comigo - ele repetiu, sem se mover, com a certeza absurda dos que não esperam por surpresas.
- Olhe para você. Eu não caibo no seu colo. Não caibo em você. Não tenho mais espaço nem mesmo em mim.
- O que você quer que eu faça? - ele parecia começar a se preocupar.
- Quero que me pegue pelo cabelo, me coma com a janela aberta, decore cada pinta que encontrar pelo meu corpo e me faça entender o que me recuso a ouvir. Quero ver a luz iluminando teus olhos e que teus gemidos contidos explodam até o outro lado da rua. Quero que engasgue com nossa saliva e que marque meu corpo com suas digitais. Quero olhar cada um dos seus fantasmas escorrendo pelo ralo do banheiro só para ter a certeza de que somos, enfim, só nós dois.
- Você é louca...
- Foi o que pensei.
IV
Bateu a porta com força. Ele ainda pensou em gritar seu nome, dizer que ela havia esquecido seu perfume no seu corpo, sua inicial nas suas entranhas, seus dedos entrelaçados nas suas mãos, enquanto a via atravessar a rua correndo, pela última vez, deixando para trás as certezas absurdas num apartamento cheio de um vazio deles dois.
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Aos [P]edaços
terça-feira, 3 de novembro de 2009
[Errante]
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
[Mea Culpa]
Chamei Cachaça para conversar inúmeras vezes. É sério, eu perdi a conta de quantas vezes batemos altos papos, travamos veementes diálogos, trocamos idéias... e nada. Cachaça sempre me ouvia quieto, nunca foi do tipo de revidar ou questionar meus modos, meus métodos, meu palavreado. Mudar, entretanto, não fazia parte dos seus planos. Como paciência tem limites - e paciência em si já é algo BEM limitado na minha pessoa -, chamei Mãe de Cachaça para conversar.
Mãe de Cachaça e eu tivemos uma conversa franca, aberta, honesta. Um tipo de conversa que não se pode ter com qualquer ser humano, se é que me entendem. A certa altura do diálogo - que, diga-se de passagem, tomou TODO o meu horário de intervalo, de modo que não sabia se assoviava, chupava cana, comia uma barra de chocolate, olhava o relógio ou plantava bananeira -, Mãe de Cachaça chegou no ponto central da razão de ser de tudo aquilo. Sabe? Da razão de Cachaça ser como é. Da razão das minhas queixas. Da razão dela ter sido chamada com toda aquela urgência pela minha fofa pessoa. A razão - não me diga que você não sabia? - de todas as catástrofes que assolam a humanidade desde que o gênero homo resolveu, assim, do nada, que ia evoluir, enfim.
- A senhora vai me desculpar, Dona [P], mas querer que meu filho se saia bem não só com a senhora, mas com os seus colegas também, quando ninguém se dispõe a dar todas as avaliações com consulta é exigir demais. Desse jeito ele e os colegas nunca vão conseguir, essa é a verdade.
Eu queria dizer que era mentira, minha senhora, que muitos não conseguiriam nem com consulta, que a vida não vem com um manual para consultarmos quando bem entendemos, que blábláblá mas, né? Após a exposição de tão torto raciocínio, guardei minha culpa - mais uma! - na bolsa e evitei a fadiga, numa boa.
[Depois eu comento, nos bastidores, que estive pessoalmente com a Dona Vodka, Mãe de Cachaça, e me chamam de venenosa...]
Mãe de Cachaça e eu tivemos uma conversa franca, aberta, honesta. Um tipo de conversa que não se pode ter com qualquer ser humano, se é que me entendem. A certa altura do diálogo - que, diga-se de passagem, tomou TODO o meu horário de intervalo, de modo que não sabia se assoviava, chupava cana, comia uma barra de chocolate, olhava o relógio ou plantava bananeira -, Mãe de Cachaça chegou no ponto central da razão de ser de tudo aquilo. Sabe? Da razão de Cachaça ser como é. Da razão das minhas queixas. Da razão dela ter sido chamada com toda aquela urgência pela minha fofa pessoa. A razão - não me diga que você não sabia? - de todas as catástrofes que assolam a humanidade desde que o gênero homo resolveu, assim, do nada, que ia evoluir, enfim.
- A senhora vai me desculpar, Dona [P], mas querer que meu filho se saia bem não só com a senhora, mas com os seus colegas também, quando ninguém se dispõe a dar todas as avaliações com consulta é exigir demais. Desse jeito ele e os colegas nunca vão conseguir, essa é a verdade.
Eu queria dizer que era mentira, minha senhora, que muitos não conseguiriam nem com consulta, que a vida não vem com um manual para consultarmos quando bem entendemos, que blábláblá mas, né? Após a exposição de tão torto raciocínio, guardei minha culpa - mais uma! - na bolsa e evitei a fadiga, numa boa.
[Depois eu comento, nos bastidores, que estive pessoalmente com a Dona Vodka, Mãe de Cachaça, e me chamam de venenosa...]
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A Vida Como Ela É
sábado, 24 de outubro de 2009
[Dona Sicrana]
Suponhamos que fui a pauta principal de uma das recentes reuniões do plano astral. Suponhamos que os participantes da tal reunião - Roteiristas da Televisa que escrevem as cenas estapafúrdias da minha vida, escolhem personagens à minha revelia e não me mostram o roteiro com antecedência, além de um Universo cujas intenções até agora não conseguimos desvendar - decidiram que era chegada a hora de eu conhecer Dona Sicrana.
Suponhamos que Dona Sicrana tenha chegado aparentemente do nada num dos meus ambientes de trabalho e que, desde então, ninguém sabe ao certo o que ela faz por lá. Alguma função fantasia, dizem as más línguas. Suponhamos que tenham dado a Dona Sicrana a opção da escolha, a utilização do seu livre arbítrio, a possibilidade de decidir com qual criatura, dentre todas as criaturas mortais disponíveis, gostaria de conviver. Minha dúvida é: por que ela não escolheu você? Por que raios ela levantou a mão ininterruptamente, quando perguntaram: [P], quem vai querer conviver com a [P], vamos lá, quem, quem? Consigo até ver Dona Sicrana berrando escolhe eu, eu quero, me escolhe, eu quero ir!
Suponhamos que eu esteja me comportando dignamente, que tenho andado disponível para ouvir conversas de senhorinhas carentes em pontos de ônibus, que estou contribuindo para a preservação das canetas vermelhas de um processo acelerado de extinção, que tenho contado até sete antes de sair despejando meu juízo de valor ou minhas supostas verdades absolutas, que venho me esforçando para aprender a contar até oito e que tenho evitado provocar qualquer tipo de combustão nos meus semelhantes.
Suponhamos também que, por não ter sido consultada sobre minha vontade de NÃO querer conviver quase diariamente com uma mulher mal amada, mal comida e em eterno mau humor, criei uma antipatia especial por ela, principalmente porque Dona Sicrana parece um arame farpado disfarçado em roupas do século retrasado que sente prazer em passar seu tempo me olhando, prestando atenção no que faço, apontando o que deixei de fazer - que, na sua opinião, seria de vital importância para a continuidade do movimento de rotação da Terra - e soltando farpas venenosas em minha direção.
Suponhamos que a última de Dona Sicrana tenha sido a seguinte: em horário de intervalo, entro na sala já cheia, vou pegar um copo d'água e, quando passo perto dela e de outra aprendiz de feiticeira, escuto Dona Sicrana dizendo...
- Ah, não sei, não... eu acho que toda aquela delicadeza e aquele jeitinho meigo dela esconde outras coisas. Aquilo não deve prestar. Pelo pouco tempo que a conheço, acho que a [P] deve saber fazer um canguru-perneta-triplo-carpado com louvor enquanto grita vai, vai, vai...
Suponhamos que, levando em consideração que a delicadeza e o jeitinho meigo até existam - assim como outras coisas escondidas -, seria desejo do plano astral que eu tivesse uma reação apática diante do relatado? Ou um desprezo pelas palavras de Dona Sicrana? Talvez um simples desvio do veneno que escorria pelo chão da sala? Não vou nem entrar no mérito do tal canguru-perneta-triplo-carpado, já que tenho vários questionamentos sobre o seu funcionamento. Isso dói? Deixa hematomas? Corre-se o risco de cair da cama, da mesa, do sofá ou de escorregar debaixo do chuveiro? A satisfação é garantida? Não sei, não sei, minha gente.
Suponhamos que eu tenha feito um minuto de silêncio em homenagem à fertilidade da mente desta mulher e que, logo em seguida, tenha me aproximado e dito no seu ouvido, com minha voz mais sexy, o seguinte:
- Cuidado, Dona Sicrana! Não conte nada disso ao seu marido! Acho que seria um pouco chato se ele comesse alguém que não deve conseguir sequer virar cambalhotas pensando nos meus dotes artísticos, não?
E então? Tenho salvação? Terei uma segunda chance para mostrar que não consegui desta vez, mas que posso, sim, ser fofa?
[Suponhamos que eu esteja ficando tensa só de imaginar qual será a revanche do plano astral após esta minha demonstração explícita de maus modos...]
Suponhamos que Dona Sicrana tenha chegado aparentemente do nada num dos meus ambientes de trabalho e que, desde então, ninguém sabe ao certo o que ela faz por lá. Alguma função fantasia, dizem as más línguas. Suponhamos que tenham dado a Dona Sicrana a opção da escolha, a utilização do seu livre arbítrio, a possibilidade de decidir com qual criatura, dentre todas as criaturas mortais disponíveis, gostaria de conviver. Minha dúvida é: por que ela não escolheu você? Por que raios ela levantou a mão ininterruptamente, quando perguntaram: [P], quem vai querer conviver com a [P], vamos lá, quem, quem? Consigo até ver Dona Sicrana berrando escolhe eu, eu quero, me escolhe, eu quero ir!
Suponhamos que eu esteja me comportando dignamente, que tenho andado disponível para ouvir conversas de senhorinhas carentes em pontos de ônibus, que estou contribuindo para a preservação das canetas vermelhas de um processo acelerado de extinção, que tenho contado até sete antes de sair despejando meu juízo de valor ou minhas supostas verdades absolutas, que venho me esforçando para aprender a contar até oito e que tenho evitado provocar qualquer tipo de combustão nos meus semelhantes.
Suponhamos também que, por não ter sido consultada sobre minha vontade de NÃO querer conviver quase diariamente com uma mulher mal amada, mal comida e em eterno mau humor, criei uma antipatia especial por ela, principalmente porque Dona Sicrana parece um arame farpado disfarçado em roupas do século retrasado que sente prazer em passar seu tempo me olhando, prestando atenção no que faço, apontando o que deixei de fazer - que, na sua opinião, seria de vital importância para a continuidade do movimento de rotação da Terra - e soltando farpas venenosas em minha direção.
Suponhamos que a última de Dona Sicrana tenha sido a seguinte: em horário de intervalo, entro na sala já cheia, vou pegar um copo d'água e, quando passo perto dela e de outra aprendiz de feiticeira, escuto Dona Sicrana dizendo...
- Ah, não sei, não... eu acho que toda aquela delicadeza e aquele jeitinho meigo dela esconde outras coisas. Aquilo não deve prestar. Pelo pouco tempo que a conheço, acho que a [P] deve saber fazer um canguru-perneta-triplo-carpado com louvor enquanto grita vai, vai, vai...
Suponhamos que, levando em consideração que a delicadeza e o jeitinho meigo até existam - assim como outras coisas escondidas -, seria desejo do plano astral que eu tivesse uma reação apática diante do relatado? Ou um desprezo pelas palavras de Dona Sicrana? Talvez um simples desvio do veneno que escorria pelo chão da sala? Não vou nem entrar no mérito do tal canguru-perneta-triplo-carpado, já que tenho vários questionamentos sobre o seu funcionamento. Isso dói? Deixa hematomas? Corre-se o risco de cair da cama, da mesa, do sofá ou de escorregar debaixo do chuveiro? A satisfação é garantida? Não sei, não sei, minha gente.
Suponhamos que eu tenha feito um minuto de silêncio em homenagem à fertilidade da mente desta mulher e que, logo em seguida, tenha me aproximado e dito no seu ouvido, com minha voz mais sexy, o seguinte:
- Cuidado, Dona Sicrana! Não conte nada disso ao seu marido! Acho que seria um pouco chato se ele comesse alguém que não deve conseguir sequer virar cambalhotas pensando nos meus dotes artísticos, não?
E então? Tenho salvação? Terei uma segunda chance para mostrar que não consegui desta vez, mas que posso, sim, ser fofa?
[Suponhamos que eu esteja ficando tensa só de imaginar qual será a revanche do plano astral após esta minha demonstração explícita de maus modos...]
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