terça-feira, 11 de maio de 2010

[De Nós Dois]

[Ele me encostou na parede e enfiou sua língua dentro da minha boca, me obrigando a entregar as palavras que nem estavam prontas para serem ditas. Segurou com uma das mãos o meu cabelo e com a outra a minha cintura, enquanto mordia minhas sílabas e engasgava com meus acentos bagunçados debaixo da roupa. Lambeu meus parágrafos com a sede dos inocentes que se afogam enquanto viram minhas páginas amassadas de histórias de amor desbotadas. Foi embora tão atordoado quanto eu, levando consigo minhas frases feitas embrulhadas na calcinha que arrancou com os dentes, acho que para não deixá-las escapar. Ele só não sabe que guardei os rascunhos de nós dois. Ele só não sabe ainda que vai querer voltar]

quinta-feira, 6 de maio de 2010

[O Vizinho]

Eu tenho um vizinho.

[Eu sei, você também tem, né?]

Este meu vizinho é o marido desta vizinha, a de proporções gigantescas e lentidão ímpar. O meu vizinho, ao contrário da esposa, não possui um tamanho descomunal mas ostenta uma barriga que, associada ao tamanho da mulher, deve fazer do ato sexual algo próximo ao bizarro.

[Sim, este é um post-desabafo e se você não curte meus surtos, é lamentável, pois eu surto b.o.n.i.t.o]

E por que meu vizinho num post? Porque o território brasileiro está pequeno demais para nós dois, imagine. Só fiz questão de vir aqui descarregar todo este excesso de fúria comunicar que, caso eu desapareça de repente, foi ele. E, veja bem meu bem, não quero dizer com isto que ele me sequestrou, me violentou e depois me matou com requintes de crueldade. Claro que esta é uma possibilidade. Porém, eu também posso estar foragida ou então presa numa cela à espera de um habeas corpus, entendeu? Ou seja, foi ele, do mesmo jeito. Ele, cujas atitudes culminaram, recentemente, em tórridas discussões entre nós dois.

[Não entraremos no mérito do que está acontecendo há alguns meses porque, né?, vamos evitar a fadiga. Vou me limitar a explicar que t.o.d.o ser humano que está a par dos acontecimentos e das atitudes dele concorda comigo. Ou todo mundo enlouqueceu e resolveu me apoiar incondicionalmente ou, de fato, é ele. E É ele, você também não concorda?]

O fato é que estou preocupada com as pessoas que estão preocupadas comigo. Algo parecido com uma corrente da preocupação está unindo quem me cerca, independente de sexo, idade e grau de parentesco. Genitor, por exemplo, lidera o grupo dos que já começaram a fazer orações, promessas e mandingas para que eu deixe isso para lá - justamente Genitor, de quem herdei este sangue que borbulha em minhas veias.

Cada vez que me olho no espelho, que penso no que me tornei, no que consegui por mérito próprio e comparo com meu vizinho, é praticamente um estado de choque constatar que eu não precisava, sabe? Discutir com quem do nada veio e para o nada caminha, com quem não concluiu o ensino fundamental por pura preguiça de estudar, com quem vem se mostrando tão mesquinho, tão arrogante, tão presunçoso a ponto de me provocar pena. Afinal, eu sou a pós-graduada nesta história, a que paga suas próprias contas, a que é respeitada no trabalho pelo tanto que se esforça em dar o melhor de si.

[Não, não vamos também comentar o fato do meu tamanho não ser algo sobrenatural tal qual o da sua esposa, nem tampouco as outras diferenças gritantes entre nós duas, ok?]

Gostaria de ser uma pessoa evoluída espiritualmente a ponto de ignorar certas coisas, mas ainda estou um pouco distante disto na minha escala particular da evolução humana, de modo que, nas duas únicas discussões que tivemos - estamos fingindo que não nos conhecemos quando nos cruzamos pelas ruas - eu consegui, depois de argumentar brilhantemente, soltar o seguinte:

- Se você gosta de fazer sacanagem com as pessoas, que vá fazer sacanagem com o rabo da sua mãe.

E...

- Se você ousar arranhar o meu carro, vai ter que tirar dinheiro do rabo, quem sabe dando o seu cu, para pagar o estrago.

...

...

...

Aham.

Eu.

Graduação.

Pós-Graduação.

Cabelo comprovadamente bom.

Corpo de tamanho visivelmente normal.

Dona do meu próprio nariz.

Aham.

Sim, eu.

Abusada.

Falei. Falei mesmo.

Só me arrependo de ter insistido na coisa do rabo, é óbvio. Meu vocabulário é tão vasto, podia ter variado, sei disso.

[Pessoas preocupadas porque o Brasil está pequeno demais para nós dois. Entendeu agora?]

segunda-feira, 3 de maio de 2010

[Suposições]

Você é uma pessoa distinta e respeitada no seu local de trabalho. Não perde a ternura, mas endurece quando necessário - o que lhe rendeu recentemente, entre os colegas, o carinhoso apelido de [P]-Chapa-Quente.

Dito isto, suponhamos que você, como pessoa distinta, respeitada e doce, precise utilizar mais de um email na sua vida. Suponhamos que esta necessidade venha do fato de você possuir um blog que é desconhecido no tal local de trabalho. Assim sendo, suponhamos - veja bem, é apenas uma leve suposição - que, após um momento perturbadamente etílico da sua vida, você tenha lembrado que precisava enviar coisas urgentes a uma coleguinha de trabalho. Suponhamos que a sua pessoa, acometida por uma pressa transcendental, tenha resolvido enviar as coisas urgentes e, só depois de ter feito isto, percebeu que utilizou o email do tal blog secreto.

Suponhamos - não esqueça, é só uma suposição - que o endereço de email utilizado tenha sido segundaintencao@gmail.com.

Você - estamos apenas supondo, claro -, que é uma pessoa distinta, respeitada e doce em seu local de trabalho, depois do estrago feito, pensaria exatamente o que?

[Não vale você está fodida, ok? Suponhamos que isto foi a primeira coisa que me veio à cabeça...]

terça-feira, 27 de abril de 2010

[Do Inusitado]

Coisas que só um ponto de ônibus quase deserto às nove e meia da noite faz por você:

- Um minuto da sua atenção, gata, pode ser?
- ...
- Um leve balançar de cabeça, que tal?
- ...
- Não dá nem pra me responder com um oi?
- ...
- Não quer me dar seu número pra gente combinar de se encontrar em outro ponto de ônibus, não?
- ...
- ...
- ...
- ...
- ...
- Porra, trepar então nem pensar, né?
- Aqui no banco mesmo? Opa, só se for agora!

*sujeito estranho me olhando assustado, virando as costas e saindo meio apressado*

[Não façam isso, crianças. Pode não dar tão certo. Inclusive comigo, estou sabendo]

segunda-feira, 19 de abril de 2010

[Mais Um Dia]

- Oi, meu nome é [P].

- Ooooooooi, [P]!

- Achei que tivesse me livrado disso ainda na adolescência, quando parecia ter encontrado o caminho da salvação auditiva e parei de me drogar. Foi um período difícil. O da abstinência, sabe? Afinal, eu estava acostumada com aquilo dia e noite. Não sabia o mal que estava fazendo a mim mesma toda vez que usava a droga. As pessoas tentavam me ajudar, faziam promessas, despachos, me mostravam coisas novas e nada disso adiantava. Foi como que por encanto que me livrei, sozinha, do vício. O encanto se deu quando um príncipe virou sapo e me desencantou. Iniciei uma abstinência total, que incluía príncipes, sapos, contos de fadas e, claro, essa droga pesada. Acontece... acontece que... bem, acontece...

- Caaaaaaaalma, [P]!

- Estou aqui porque preciso de ajuda. Não sei como vou lidar com isso sozinha. Não sei como será minha vida de agora em diante. O fato é que, na última sexta-feira, alguém da vizinhança resolveu que seria boa idéia ouvir todo o repertório dele com o volume nas alturas. Foi mais forte do que eu, entende? Quando vi, estava cantando todas as músicas, sem errar nenhuma porra de frase sequer e, para piorar, quando Fábio Jr. cantou "e agora o que é que eu faço? não existe igual você, eu não posso inventar uma paixão; só no tempo e no espaço estou longe de você, porque sei que aqui dentro não vou te esquecer" eu explodi em soluços descontrolados. Não sei se serve de consolo, mas isso foi na sexta-feira, reparem bem. Já são dois dias, portanto, sem me drogar. Obrigada.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

[Drogas]

Uma amiga me mostrou o Orkut de um ex, sua mulher, seu filho, seu enteado, seus agregados e afins. Éramos adolescentes quando nos conhecemos e não fazia parte dos nossos planos casar, ter filhos, dividir contas e rotina. O que tivemos não durou muito. Mesmo morando muito próximos, um esbarrão acidental pelas ruas era coisa rara. Em suma, nossas vidas tomaram rumos bem distintos.

B.e.m d.i.s.t.i.n.t.o.s.

B.E.M.

B.E.M distintos M.E.S.M.O, você não está entendendo.

Vejamos: eu me tornei esta pessoa que sou hoje.

[Introduza aí o que melhor explique isto que me tornei hoje, por favor]

Ele, segundo li, realizou os dois grandes sonhos da sua vida: casar e ser pai.

[Calma, a parte em que temos que lamentar ainda não chegou, ok?]

Alguém me imaginaria mantendo relações sentimentais, sexuais e matrimoniais com um sujeito que eu chamava de Piuí?

E se eu contasse que a esposa do Piuí não suporta falcidade, tem dúvidas se par perfeito esiste e curte muitomuitomuito artezanato e comidas daites?

[Drogas para que, não é minha gente? Interagir com seres esquisitos sempre foi um risco para mim...]

segunda-feira, 29 de março de 2010

[Borboletas No Estômago]

Ela tinha uma coleção de 347 borboletas no seu estômago que voavam desbaratinadamente, dia e noite, noite e dia. Não sabia quando aquela aglomeração começou a se formar, se tinha sido enquanto lia palavras bonitas e gargalhava às escondidas ou quando deram o primeiro beijo debaixo de uma chuva que borrara seus planos de ser invencível na arte de não aprender a se deixar amar. Ele não lhe dizia as palavras que ela gostaria de ouvir. Às vezes ele nem mesmo lhe dizia as palavras. E isso não importava; afinal, ela tinha uma coleção de 325 borboletas no seu estômago que voavam desbaratinadamente e que podiam muito bem procurar alguma palavra perdida por entre seus órgãos vitais. Ele não dizia qual era sua banda ou sua música favoritas, a não ser, claro, que alguma moral edificante estivesse escondida por entre letras e acordes. Ele gostava disso. Disso, você sabe, de não dizer o que queria dizer. Ela também gostava das entrelinhas, essa coisa de se esparramar por entre os espaços que separam duas palavras, assim como em odeio vocês, entende? Só que tinha horas em que tudo o que ela queria era que houvesse um tiro direto, ainda que fosse para dizer que nunca na sua vida iria ouvir Chico, nem para agradá-la. Não que isso importasse; afinal, ela tinha uma coleção de 296 borboletas no seu estômago que voavam desbaratinadamente enquanto ouviam Cotidiano e que podiam muito bem continuar ensaiando passos de dança sozinhas. Ele não lhe contava sobre suas experiências em vidas passadas ou no último fim de semana, nem tampouco falava sobre sua vontade de alcançar as estrelas. Mas isso também não importava; afinal, ela tinha uma coleção de 251 borboletas no seu estômago que voavam desbaratinadamente e que podiam perfeitamente atingir o céu da sua boca em questão de segundos. Ele não gostava de falar quando estavam juntos. Preferia escutá-la contar histórias. Pedia sempre para que ela contasse histórias, porque ela sabia fazê-lo rir. E assim os dias passavam. Ele ria. Com ela. Dela. Ela ria junto, não lhe custava nada sorrir de vez em quando. Inclusive, ela tinha uma coleção de 133 borboletas no seu estômago que voavam desbaratinadamente, perdiam a direção, esbarravam-se umas nas outras enquanto ela sorria e que também perdiam o rumo na época em que só chorava e, assim sendo, não seria difícil para suas borboletas fazerem um certo alvoroço, só para dar-lhe aquela falsa sensação de que se está feliz. Ele não precisava falar muito, na verdade. Parece que fizeram um pacto desde a primeira vez. Combinaram de se falar em silêncio, sem gastar sílabas, apenas com o olhar. Então, ele a olhava como nenhum outro jamais fizera e ela sentia o que talvez palavra nenhuma fosse definir. Ele tirava sua roupa para poder escrever melhor com o olhar o poema que fizera para ela e a canção que gostava de ouvir nos momentos de solidão. Às vezes ele esquecia de devolver-lhe suas roupas e ela andava nua pela cidade. Uma vez até notaram suas feridas expostas. Mas ele gostava mesmo era de emudecer quando a via nua sobre si. Ele não falava o que ela gostaria de ouvir sobre as feridas que ele próprio provocara. Não que isso importasse, entenda bem; afinal, ela tinha uma borboleta no seu estômago que voava desbaratinadamente, exibicionista, provocante. Todas as outras cansaram de andar tão à mostra, ou começaram a sentir frio, ou passaram a sentir falta de sons, ou. Enfim, fugiram. Mas isso também não importava; afinal, ela tinha um desejo enorme de voltar a cultivar uma coleção de 347 borboletas no seu estômago que voassem desbaratinadamente. Ainda.