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terça-feira, 12 de julho de 2011

["É O Que Me Interessa"]

Eu faço coisas às escondidas:

a pausa do retrato

O tempo todo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

["In The Dark Of Night"]

[Achei a toalha ainda molhada e com o seu cheiro de shampoo barato, perdida no meio dos versos daquela poesia tosca que eu pensava ser a mais bonita que escrevi, num janeiro calorento de anos atrás. Encontro sua toalha e nela me escondo; e quando enxugas teu rosto, sou eu que te beijo, você lembra? É claro que não se lembra. Suas lembranças de nós dois ficaram encaixotadas em algum canto escuro e mofado da sua memória. Também me desfiz de você. Sabe como é, não sabe? Você era somente o então grande amor da minha vida, não podia te carregar entre os seios eternamente. Foi assim que dobrei em pedaços tão pequenos quanto a pequenez dos seus gestos todos os desejos que mantive aprisionados entre minhas pernas e mais outros tantos que deixei escapar junto com minha saliva misturada à sua em noites regadas a álcool e estrelas cadentes. Dobrei e guardei todos eles entre as capas dos discos de vinil que colecionávamos juntos e que acabei de rasgar, uma a uma, sentada no tapete da sala à meia luz e ao som de Sweet Child of Mine, em sua homenagem. Lembra dos poderes telepáticos que dizia ter e todo aquele papo furado sobre sentir a minha raiva junto comigo? Nunca acreditei. Fazia cara de virgem indefesa e inocente porque gostava de rir da sua ingenuidade quando achava que me enganava com historinhas pueris. Você não sabia nem sentir, imagine sentir a minha raiva. Quem você pensava que era? Devia sentir o frio que estou sentindo agora enquanto rasgo What's Going On só de calcinha, com uma caneca de chocolate quente ao lado e uma imagem patética sua, daquelas que você caprichou em fazer para deixar registrada na minha memória. Eu queria rir do seu cabelo sem graça e dizer que os anos te fizeram mal. Eu queria explicar que aquela mochila surrada não estava combinando com suas roupas. Eu queria te dar um tapa na cara para cada uma das lágrimas que derramei dentro de copos com gelo. E você estragou tudo quando falou da porra da sua vida, do clima ameno e das últimas manchetes, do mesmo jeito que estragou tudo naquela noite em que te apontei uma constelação e você não soube dizer qual era, preocupado que estava em levantar meu vestido junto àquele muro. Deixa eu te contar uma coisa. Abandonei a falsa inocência pelo caminho. Joguei-a do oitavo andar quando estava na faculdade, aquela pedante que teimava em cegar meus olhos. Desde então carrego comigo a devassa que morde os lábios enquanto fala e geme com os olhos enquanto cala. By my side ainda ecoa no meu ouvido, mesmo estando longe da pista de dança e mesmo depois de anos posso repetir a entonação da sua frase quando perguntou se eu estava sozinha e se queria ficar com você, esquecedo de me contar que estar contigo era estar rodeada de incertezas, porque sempre foi medroso demais para se jogar ao meus pés e se deixar atropelar por um corpo em brasa ou para equilibrar meu coração na palma da mão e chupar meu sexo ao mesmo tempo. Você não sabia, mas eu sempre gostei de ser vertigem. E você era só um fraco agarrado ao meu corpo como se fosse sua última salvação. Eu não era, baby. Era só uma alucinação com dia e hora marcados para desaparecer. Como toda vertigem deve ser]

terça-feira, 17 de março de 2009

[Prólogo]


A qualquer momento farei poesia entre minhas pernas e deixarei um rastro de palavras com gosto de gozo para que me encontres à sua espera, com os olhos fechados e o peito arfando como se não houvesse mais oxigênio amanhã. A qualquer instante envolverei seu corpo numa armadilha úmida e te manterei refém das minhas entranhas, até que passe esta tormenta de dizeres e angústia e permanências que se misturam com nossas roupas num emaranhado de botões difíceis de desabotoar, como se fossem parte da maquiagem da noite anterior que mantive até agora para esconder a boca suja de poeira e rimas imperfeitas. A qualquer segundo te farei renascer das profundezas do inferno que transformamos em lar doce lar, numa explosão de vida escancarada em forma de sussurros e arranhões e palavrões escorregando até meu umbigo. A qualquer minuto meus lábios vão tentar dizer o quanto. Mas ainda não. Dispenso a anestesia como a despudorada que abre mão da calcinha de renda e com o desdém de quem pisa em cacos de versos mal feitos para sentir, agora, somente as contrações do que está por vir. A qualquer momento.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

[Síndrome]

"Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada... A mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares... Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais as primeiras discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um filho pra criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente... Casa comigo que te faço a pessoa mais 'casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo' "
[Michel Melamed, Regurgitofagia]

Caso contigo e te faço o homem mais feliz do mundo. Mesmo sabendo que sou muito mais mulher do que você é homem. Caso contigo e te faço não só o mais amado e respeitado... Caso contigo e te dou também o prazer de mais me comer. E de ser o mais namorado das redondezas e o mais bem casado. O mais festas, shows, cinemas... O mais realizado profissionalmente, ainda que não tenhas um emprego. Ainda que tenhas apenas sonhos. Caso contigo e com seus sonhos de uma cabana no meio do nada e uma menina mais parecida comigo correndo com os pés mais descalços. Caso contigo e te faço o mais pai de todos os possíveis pais que eu poderia escolher para a filha do meu ventre, a filha da mais mãe de todas as mães. Caso contigo e com seu mais conformismo em saber que sou a pessoa mais de todas as minhas discussões e das minhas brigas repetidas de sempre. Caso contigo mesmo sabendo que serei a mulher mais separada do mundo. Que terei nossa filha com o seu jeito mais tímido para criar mais sozinha no mundo. Caso contigo ainda que você me deixe mais no fundo do poço tempos depois. Ainda que me faças derramar mais rios de lágrimas. Caso contigo e te darei o consolo de ter sido casado com a que mais deu a volta por cima e mais reconstruiu sua vida. Caso contigo e te darei o prazer de ser o ex da que mais conheceu outra pessoa e mais se apaixonou torridamente... Caso contigo e te faço o homem mais "casa comigo que te faço o homem mais feliz do mundo".

Caso contigo, Bentinho. É só você pedir.

Beirut - Elephant Gun

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

[Confissões]

Tudo começou quando você me pediu para que eu não escrevesse mais sobre nós dois. Era uma noite sem luar e na rádio da casa da vizinha, do outro lado da rua, tocava qualquer coisa brega demais para impulsionar meu ímpeto radical de desobediência. Naquela noite eu tinha decidido mudar. E obedecer. Tentaria roteiros lacrimejantes, histórias de comercial de margarina, chutes meteorológicos ou previsões para nossos signos baseadas unicamente na minha vontade de trepar com você. Tudo, menos nós dois. O tombo que levei ao tropeçar no tapete daquela sala lotada. Acho que até viram minha lingerie. Os palavrões que escapuliram da minha boca quando o motorista de um ônibus ameaçou ensopar minha roupa com a lama de uma poça qualquer na manhã seguinte ao seu eu não quero mais. Tudo, menos nós dois. Comecei a rabiscar as besteiras dos dias insólitos em papéis de pão, na contracapa dos nossos livros, distraidamente na minha mesa, nos cadernos alheios e no espelho do banheiro.

Foi quando me dei conta de que a ausência de minhas cores me consumia e que o excesso de bobagens espalhadas pelo chão do apartamento vazio estava me sufocando. Juro, eu juro que tentei encontrar os pedaços das letras ingênuas e obedientes que escrevi, envoltas em nuvenzinhas e corações despretensiosos, só que eles se perderam, talvez misturados à lembrança do seu suspiro que, eu também juro, ainda ecoa pelas paredes. Mas também não faz mal. Porque se eram sobre tudo, menos nós dois, não tinham grande importância: o tombo que não existiu, os palavrões que não falei, as previsões que errei e as lágrimas que fiz a mocinha derramar no dia em que fugiu com o herói da história.

Preciso confessar. Regredi. Sou uma fraca. Uma covarde. Uma submissa das entrelinhas. Você não sabe, mas te escrevo às escondidas os textos mais escandalosos que consigo parir. É meu vício. Sou dependente do ato de dar à luz meus anseios em forma de palavras. É, eu sei. Havia prometido parar, mas é mais forte. E como se não bastasse escrever, um belo dia decidi que precisava compartilhar.

Agora faço assim: escrevo entre sangue e placenta, entre sorrisos e lágrimas, escondo meus versos na minha bolsa como se estivesse enrolando-os numa manta e os carrego, sorrateiramente, para meu armário. Espero o momento ideal, colo a folha rabiscada do lado de dentro da porta e mostro os nossos textos para as meninas que não sabem esconder o tom vermelho dos seus rostos quando lêem o que gostariam de dizer.

Foi assim que entrei para o submundo dos textos. Cada vez que os mostro, aparece uma dizendo que precisa entregar aquelas linhas para alguém, com aspas e citando a autora, claro. Imagine, nossos textos! Em troca de vodka, piadas, waffer de chocolate e sorvete de morango. Acho que já desfizemos casamentos, humilhamos ao extremo e, em maior escala, provocamos orgasmos por aí.

Estou pensando numa especialização às pressas. Quero ajudar a trazer a pessoa amada em poucos dias. Não você. A pessoa amada de outras pessoas. Portanto, esqueça o pedido de perdão que me fez com a voz rouca naquela tarde ensolarada. Estou ocupada demais me mostrando a quem está disposto a me despir letra por letra, no meio dos textos que fiz só para você.