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quinta-feira, 4 de abril de 2013

[S]

Eu sabia.

Alguma coisa me dizia que não demoraria muito para que o óbvio se manifestasse.

Delicadeza com "s" não rola, meu querido.

Certamente existem muitas mulheres que não se importam com um "s" inconveniente, mas eu me importo.

[Pegue o seu "s" e volte para a pista de dança. Correndo]

sábado, 10 de novembro de 2012

[Transcendental]

Não é libertador quando você descobre, clicando de link em link a esmo, que o Exu com quem tentou manter qualquer coisa próxima de uma convivência humana e que fez questão de esfregar na sua digníssima face a rapidez com que arranjou uma namorada adicionou, entre os seus favoritos no Youtube - PREPAREM-SE -, um vídeo pornográfico de péssima categoria?

[Transcendental. Não consigo achar outra palavra que melhor defina este meu momento, gente]

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

[!]

Pareço legal, mas ontem fui trabalhar dirigindo ao som de RPM [!] e, ainda por cima, cantando [!!] tão alegremente [!!!], que cheguei a chamar a atenção [!!!!] de motoristas dos carros ao lado.

Inferno astral, deve ser.

[Não me julguem]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

[Meu Mundo]

Vivo num mundo onde a bigamia é proibida as pessoas acreditam quando digo que, em virtude dos últimos acontecimentos, meu casamento na roça com o colega fuck me please do trabalho não passará de encenação e que, por isso, estarei rifando meu marido par, logo depois da festa. Neste mundo onde vivo, as pessoas costumam me levar muito a sério: tão logo anunciei a brincadeira, a mulherada entrou em polvorosa e, na tarde seguinte, apareceram os t.a.l.õ.e.s da suposta rifa. Tá? Aqui no meu mundo, as mulheres têm muitos pinos frouxos dentro das suas cabecinhas uma imaginação super fértil e, alegando que poderíamos fazer alguma coisa para que o nosso mundo seja um lugar cada vez mais maluco melhor para se viver, pensaram em investir o dinheiro arrecadado às custas da gostosura do colega da Matemática numa ação social que ajude ao próximo, àquele próximo tão necessitado de razão quanto elas, ou de coerência quanto eu - já que, né?, estou achando muita graça na coisa toda.

[Este é o meu mundo. Desculpa, sociedade]

segunda-feira, 14 de maio de 2012

[Reclamações]

Estive pensando que talvez as pessoas tenham razão quando dizem que não entendem o porquê de eu reclamar tanto e ainda querer mais coisas da vida. Acho que elas estão certas. Não tenho motivos para reclamar. Não quando:

 a) Recebo correspondências. Quer coisa mais triste do que, em tempos de internet, não receber nenhuma cartinha? Eu recebo. O fato de que sou uma das poucas que recebem cartas me deixa um pouco constrangida, preciso confessar. Principalmente quando sei que frustrei esperanças. Posso até ver a cena: nota baixa-mãe-filho-verbo descascar. Será que vou parar de receber cartas? Isto não pode acontecer. O que seria de mim sem estas cartas, não é verdade?


b) Sou amada. Cara, sou muito amada. Jesus me ama. Sabe o que isso significa? Sabe o que é uma adolescente escrever isto naqueles minutos em que, sei lá, poderia estar... fazendo uma avaliação para nota? Olha, já andei ouvindo por aí que Jesus ama muita gente, mas agora sei que também estou no meio, faço parte do amplo grupo de pessoas amadas por Jesus e não há porque me sentir excluída - o que mais eu poderia querer da vida, me fala? 


[De fato, não dá para entender por que reclamo da vida. Agora estou entendendo tudo. Nem sei como agradecer...]

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

[Um Doce]

Tenho dois colegas de trabalho. Tenho vários, mas estes dois são muito peculiares, por serem absurdamente opostos. Outro dia fiquei sabendo, através de uma amiga, que os dois conversavam sobre a minha pessoa e, quando Amiga entrou na sala, o colega que iniciara a conversa parou de citar meu nome porque, imagine, eu ia ficar sabendo e tentaria triturá-lo em pensamento. Colega "A" contava sobre uma vez que eu lhe neguei carona, afirmando que meu carro estava cheio.

Colega "A": - Sim, ela foi grossa, muito grossa, falou num tom horrível.
Colega "B": - Não é possível...
Colega "A": - Ela não quis me dar carona e me deu um fora na frente de todo mundo, dizendo que o carro já estava cheio. Não teve um pingo de educação.
Colega "B": - Não acredito... Tem certeza que ela falou sério?
Colega "A": - Absoluta. Grossa. Antipática. Metida.
Colega "B": - Mas ela é um doce, nunca levanta a voz, como é que isso foi acontecer?
Colega "A": - Cuidado com ela. 

Minutos depois, Colega "B" perguntou se realmente eu havia feito aquilo tudo com Colega "A" e, diante da confirmação de Amiga, pensou por uns minutos e, por fim, concluiu:

- Se ela é um doce de pessoa, ele só pode ter enchido a paciência dela. Tudo tem um limite e com ele ninguém aguenta mesmo. Foi isso, lógico.

 Não sabia se ria ou chorava diante de tamanha defesa da minha doçura, até porque:

a) neguei carona ao Colega "A" mesmo; não menti quando disse que as vagas já tinham sido ocupadas;

b) ainda que estivesse sozinha, eu negaria carona do mesmo jeito;

c) não sei se isso diminui minha culpa, mas Colega "A" é um sujeito com idade para ser meu pai, porém totalmente sem noção, asqueroso e chato, que ultimamente anda espalhando para a galera que está pegando uma senhorinha necessitada do trabalho;

d) uma inofensiva carona seria uma ótima desculpa para meu nome desfilar na lista de pessoas que Colega "A" supostamente estaria pegando;

e) vamos combinar, ainda que estivesse morrendo de necessidade, não seria Colega "A" que me agarraria, me apertaria, me lamberia, enfim;

f) talvez eu não tenha sido mesmo um amor de pessoa quando, na frente de várias pessoas, disse que sou eu quem decide quem vai de carona e que no meu carro ele não entraria de jeito nenhum, a não ser que quisesse uma ajuda para ser jogado da porra da ponte.

Assim. Um doce.

domingo, 3 de abril de 2011

[Algo A Mais]

Eu carrego um chaveiro do meu time de futebol pendurado na minha bolsa. Elimino, desta maneira, pelo menos uma, das várias curiosidades clássicas de subordinados de todas as idades.

Outro dia cheguei no trabalho e me espalhei numa mesa onde só havia coleguinhas do sexo masculino. Um deles pegou meu chaveiro para confirmar se era mesmo do meu time de futebol. Segundo eles, é difícil de se ver uma menina manifestando seu amor pelo time de futebol na bolsa que usa para trabalhar. Ainda segundo eles, aquilo era só de enfeite e eu não poderia entender de futebol também - já bastam meus dons natos, do tipo ensinar, bordar, pintar, gritar e debochar; não, futebol também não dá.

Após passar no teste de perguntas aleatórias sobre times, técnicos e jogadores aleatórios, falaram que subi - e muito - no conceito deles e que, a partir de então, eu sou vista como aquela que tem algo a mais do que todas as outras coleguinhas.

A pergunta que não quer calar é: que tipo de menino me colocava, até então, dentro do mesmo saco de farinha onde estão várias outras mulheres e precisou somente de um chaveiro para mudar todo o seu conceito sobre minha pessoa?

O fato perturbante nisso tudo é: por que eu, que em condições normais de temperatura e pressão diria mas só agora que você reparou que tenho algo a mais do que as coleguinhas? deixei esta frase apenas dentro da minha descompensada cabecinha e, discretamente, me dirigi até meu armário e comecei a chorar em cima de avaliações que esperavam correção, e não um banho?

domingo, 20 de março de 2011

[Da Arte De Ser [P]]

Então eu estava numa festa de aniversário de um adolescente. Aquela coisa toda: engorda um pouco daqui, bebe um pouco dali, finge que interage acolá e por aí vai.

Depois de muita musiquinha de gosto profundamente duvidoso e de termos visto os meninos em brincadeiras constrangedoras, inventaram que as meninas participariam de um desfile e que a vencedora ganharia... mais doces!

Começaram com uma espécie de eliminatória, na qual iam escolhendo as candidatas e dizendo você, vem brincar ou vamos, você também, vem brincar, enquanto eu aguardava no meu cantinho, pensando me chama, me chama, me chama...

[Já falei que testo as pessoas? Ossos do ofício. Estava em posição fetal numa cadeira, quase invisível, só para ver se me chamariam. Passaram no teste]

Todas desfilavam, os jurados - meninos presentes na festa: exus de vidas passadas, criaturas recém saídas da creche, fundadores de asilos, enfim, uma variedade de meninos - davam as notas e, por fim, o resultado.

Adivinha quem ganhou no quesito desfile? E no quesito charme? E no quesito roupa mais bonita? E no quesito beleza? E no quesito simpatia?

[Não, eu não fui a Miss Simpatia. Por que será?]

Inconformada com tanto doce na minha frente e a ausência de uma faixa para coroar meus títulos, ordenei sutilmente que providenciassem qualquer coisa que funcionasse como uma. Onde já se viu? Não dá, gente, quero as faixas, eu disse.

Demorou um pouco, mas apareceu uma, até que bonitinha, confeccionada de última hora. A organizadora da brincadeira sugeriu que o aniversariante colocasse a faixa em mim e eu disse que não era boa ideia. Falou, então, que poderia ser o pai do aniversariante. Eu disse que não. Que tal aquele senhor ali? Vai ficar uma cena bonita, né? Outra vez eu disse que não. Nunca vi uma mulher para ter tantas ideias péssimas num curto intervalo de tempo como aquela sujeitinha.

Quando finalmente ela disse que eu poderia escolher alguém, respondi que era o garçom. Ainda perguntei se ela era lésbica ou simplesmente tapada, por não ter notado que o garçom era o único menino capaz de enfaixar não só a mim, mas todas as meninas daquela festa.

[É por isso que não fui escolhida a Miss Simpatia. Um show de maturidade...]

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

[Da Arte De Ser Menino]

Então existem os meninos, né? O que seria de nós, meninas, se não existissem os meninos para ..., para ... e para ...? Num dos meus trabalhos, os meninos fazem parte de uma intrigante espécie homo que, creio, ainda não foi catalogada em todas as suas nuances. Senão, vejamos:

Temos uma sala só nossa. Entramos na nossa sala e logo no centro avistamos uma enorme mesa, na qual eu despejo, ela despeja, eles despejam, nós despejamos bolsa, pasta, laptop, mapas, filmes, água, lamúrias e avaliações. De vez em quando entrávamos em desespero, mas isso foi há tempos, quando tínhamos que disputar grampeadores que, num passe de mágica, desapareciam. Um dia, alguém - que certamente não foi um menino da intrigante espécie homo com a qual convivo - teve a magnífica ideia de prender um grampeador grande, robusto, viril e atraente numa das pontas da nossa mesa para que, enfim, a disputa enlouquecida pelos grampeadores chegasse ao fim. Assim, ó:


Entrávamos na sala e logo avistávamos o dito cujo, até o ano passado. Férias vieram, férias terminaram e voltamos a trabalhar. Ontem eu estava numa vibe vou me espalhar aqui, me deixa trabalhar em paz quando, de repente, precisei do robusto grampeador que, vejam só, havia desaparecido do seu lugar cativo. Estávamos eu e dois meninos na sala. Perguntei se sabiam onde estava o objeto. Para minha surpresa, eles me mostraram o grampeador, que estava grudado numa outra ponta da mesa, próximo a eles. Assim, ó:


Visualizou, né? Um dos meninos, gentilmente, quis me ajudar a grampear minhas coisas, desistindo logo após eu explicar o passo a passo da minha vibe trabalhadora. Terminei de usar o objeto, voltei para meu lugar e, então, começaram a reclamar. Disseram não entender o porquê de terem trocado o grampeador de lugar, nem tampouco não terem notado que lá onde ele estava era incômodo para todos, já que é o espaço reservado para o uso de laptop. Fiquei tensa com o crescendo das reclamações, afinal, eu só queria trabalhar, não queria participar de nenhuma rebelião em defesa de um lugar digno para grampeadores. Segue o diálogo dos meninos:

- O que podemos fazer? O pior é que agora vamos ter que dar um jeito de arrancar esse troço daqui, aqui não pode ficar, tem que voltar para o canto dele.

- Mas isso vai dar um trabalho, não? O que vamos fazer?

- Que tal vocês simplesmente mudarem a posição da mesa? - foi o que eu disse, depois de vencer a tensão.

Expliquei que o grampeador continuava no mesmo lugar e que alguém muito malvado tivera a péssima ideia de tentar confundi-los, alterando a posição da mesa. Joguei toda a culpa nesse alguém malvado que até agora não sabemos quem é, porque eu não queria ofuscar a todos com o brilho da minha inteligência superior, puxa vida. É, eu sei, sou muito fofa mesmo.

[Meninos... tsc!]

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

[Difícil, Muito Difícil]

1) De como eu tento pensar positivamente e tudo o que ganho é a constatação de que sou difícil, faço coisas difíceis, passo por momentos difíceis, compartilho dificuldades e por aí vai:



2) De como, no final das contas, eu fico sem saber o que fazem comigo ou do que se trata cada coisa:


3) De como me compadeço dos pecados alheios:


5) De como sou obrigada a entender - porque aceitar, jamais! - as melecadas que me aprontam:


6) De como podemos concluir que a mulher é a base de muita coisa neste mundo - desde que o mundo é mundo, inclusive:


7) De como a memória é algo seletivo na hora de reter, pelo menos, um ensinamento futebolístico que faço questão de propagar:


8) De como me dar conta de que não sou a única a pensar que há alguma coisa errada com este mundo:


[Em minha defesa quero dizer que sou difícil sim, mas nem fazia muito tempo que tinha contado aquela velha historinha de quando os europeus chegaram ao continente americano, puxa vida...]

terça-feira, 18 de maio de 2010

[O E-mail]

Problemática, uma das três estranhas criaturas que eu chamo, por motivos de força maior, de meus estagiários, todatodatoda constrangida pediu licença para falar comigo no final do expediente.

- Recebi seu e-mail, [P]. Segundaintencao@gmail.com. SEU e-mail, [P].

[Problemática, em função da sua carência sexual, é sucinta. Demais. Acho que ela tem medo de utilizar muitas letras, acabar formando várias palavras, ter um colapso gramatical e chegar a um orgasmo involuntário, é isso]

Ao perceber que sua aflição não estava ligada às coisas que eu tinha pedido para que fizesse, mas sim ao endereço de e-mail que, por engano, utilizei para enviar a mensagem, a primeira coisa que me veio à mente - sim, porque eu sou aquela que pensa em mil coisas e, no final das contas, escolhe algo que nem sequer tinha imaginado - foi:

- Criei este e-mail especialmente para você, veja que honra! Foi a maneira indireta mais delicada que encontrei para dizer que, colega, você precisa dar. E dar urgentemente, se liga. Dê. Para o primeiro que topar receber. Você precisa, fofa.

[Nada como duplicar as besteiras que fazemos em nosso dia-a-dia, não é verdade?]

quarta-feira, 10 de março de 2010

[Arte]

Era uma vez duas mulheres: Descompensada e Descontrolada.

Descompensada, como a própria alcunha sugere, dispensa apresentações. Gosta de ficar sem fazer nada, embora esteja sempre procurando algo para fazer, de chantilly, de Coca Zero, de mar, de cadeiras estranhas, de mandar e de ser obedecida, dentre outras coisas. Por outro lado, não gosta de Descontrolada.

Descontrolada, como o próprio nome sugere, gosta de esbanjar descontrole motor-psicológico-financeiro-e-emocional. Ao que tudo indica, passou a odiar Descompensada.

[Não sabemos o motivo já que, segundo consta, embora seja uma bomba-relógio prestes a explodir, Descompensada explode glamourosamente, de modo que todo mundo acha aquelas faíscas uma coisa espetacular]

Descompensada gosta também de inventar coisas lúdicas, dentro das quais esconde tudo o que acha que seus subordinados precisam aprender, numa tentativa de abduzi-los e testar experiências que farão com que utilizem partes dos seus cérebros nunca antes utilizadas, a não ser quando se trata do que lhes convém [msn, orkut, funk, bolas de papéis com conteúdos confidenciais que criam asas e saem voando vezemquando - tudo coisa do mais alto nível em termos de preocupação com os estudos, como podemos observar].

Pois bem. Quis o Universo e os Roteiristas da Televisa que Descompensada fosse a chefe e Descontrolada, a chefiada. Num dia inspiradamente lúdico, a chefe pediu para que a chefiada fosse buscar algumas coisas que estavam faltando para que o maternalzinho em forma de adolescentes pudesse começar a trocar vibrações positivas que, através de incentivos em forma de canetas azuis na dose certa, provocariam explosões de saber por todos os seus poros. Lembro bem que Descompensada bancava a fina e pedia educadamente, quando Descontrolada a interrompeu, alegando que não poderia ajudar porque tinha acabado de sair do salão, suas unhas estavam leeeeeeeennndas e não ia correr o risco de pôr as patinhas mãos nas tintas que poderiam estragar aquela belezura toda.

- Se você tomar cuidado, não vai estragar nada.
- Ah, vai dar não, [P]. Pede para outra pessoa. Por que EU é que tenho que fazer isso?
- Porque não posso sair desta sala agora, senão sangue jorrará pelo ambiente. Porque você não está fazendo nada e é minha estagiária. E porque eu estou mandando. Três razões.
- Ah, é? E quem você pensa que é para mandar em mim?

Reza a lenda que, neste instante, Descompensada deixou a sala do maternalzinho disfarçado de adolescentes, foi sozinha pegar o material que estava faltando, jogou tudo em cima da mesa, abriu dois vidros de tinta, molhou os pincéis, tomou entre as suas mãos as patinhas mãos de Descontrolada, incorporou o Van Gogh que todo ser humano deve guardar dentro de si e produziu obra-prima sobre o esmalte da chefiada, sob o olhar atento da platéia que, a partir daquele instante, deve ter notado que desobedecer é coisa de crianças más.

[Toda trabalhada no glamour essa tal de Descompensada, é o que eu sempre digo]

Descontrolada, possuída por um começo de mimimi-você-é-malvada-mimimi-vou-contar-tudo-pra-Diretor-mimimi-você-é-boba, pedia uma explicação com o olhar pois, ao que tudo indica, ela não consegue pegar no tranco em situações adversas e verbalizar em língua inteligível o que chama de raciocínio.

- Como eu estava dizendo antes de você me interromper, sou aquela que manda em estagiárias e suja o esmalte de quem se recusa a obedecer - foi a explicação.

Fim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

[Mea Culpa]

Chamei Cachaça para conversar inúmeras vezes. É sério, eu perdi a conta de quantas vezes batemos altos papos, travamos veementes diálogos, trocamos idéias... e nada. Cachaça sempre me ouvia quieto, nunca foi do tipo de revidar ou questionar meus modos, meus métodos, meu palavreado. Mudar, entretanto, não fazia parte dos seus planos. Como paciência tem limites - e paciência em si já é algo BEM limitado na minha pessoa -, chamei Mãe de Cachaça para conversar.

Mãe de Cachaça e eu tivemos uma conversa franca, aberta, honesta. Um tipo de conversa que não se pode ter com qualquer ser humano, se é que me entendem. A certa altura do diálogo - que, diga-se de passagem, tomou TODO o meu horário de intervalo, de modo que não sabia se assoviava, chupava cana, comia uma barra de chocolate, olhava o relógio ou plantava bananeira -, Mãe de Cachaça chegou no ponto central da razão de ser de tudo aquilo. Sabe? Da razão de Cachaça ser como é. Da razão das minhas queixas. Da razão dela ter sido chamada com toda aquela urgência pela minha fofa pessoa. A razão - não me diga que você não sabia? - de todas as catástrofes que assolam a humanidade desde que o gênero homo resolveu, assim, do nada, que ia evoluir, enfim.

- A senhora vai me desculpar, Dona [P], mas querer que meu filho se saia bem não só com a senhora, mas com os seus colegas também, quando ninguém se dispõe a dar todas as avaliações com consulta é exigir demais. Desse jeito ele e os colegas nunca vão conseguir, essa é a verdade.

Eu queria dizer que era mentira, minha senhora, que muitos não conseguiriam nem com consulta, que a vida não vem com um manual para consultarmos quando bem entendemos, que blábláblá mas, né? Após a exposição de tão torto raciocínio, guardei minha culpa - mais uma! - na bolsa e evitei a fadiga, numa boa.

[Depois eu comento, nos bastidores, que estive pessoalmente com a Dona Vodka, Mãe de Cachaça, e me chamam de venenosa...]

sábado, 19 de setembro de 2009

[Apresentando]

Então a história começou assim:

Fui dar minha contribuição para o enriquecimento da moça gentil que cuida do meu cabelo bom. Cheguei de surpresa e, quando ela perguntou o que estava fazendo lá, se ia ser hidratação ou algo parecido, exclamei um que nada, hoje eu vim cortar, amiga; mete a tesoura nisso tudo e depois me mostra como ficou que, evidentemente, virou motivo de risos no recinto.

Queriam saber o que estava acontecendo comigo por que, ora bolas, desde quando virei fã de tesouras, certo? Perguntaram se era problema no trabalho; se alguém estava doente, excetuando a minha pessoa transtornada, claro; se algum cara era o responsável por aquilo; se eu tinha passado a usar drogas pesadas ou se queria mudar o visual para me prostituir com um novo corte de cabelo.

[Não, ninguém perguntou se era só uma vontade de mudar que havia aparecido do nada, não]

A moça gentil se recusou. Peguei a tesoura e disse que eu mesma ia fazer um estrago na frente dela, que seriam fios, sangue e lágrimas por tudo quanto era lugar. Ela não se moveu, mas começou a tecer argumentos contra aquela idéia agressiva da minha parte que, com certeza, me levaria ao arrependimento tão logo chegasse em casa e me olhasse no espelho outra vez.

Sua pobreza de argumentos a princípio me deixou consternada, depois aflita e, por fim, bastante irritada, a ponto de me fazer desistir de querer uma tesoura por perto e, ainda por cima - o que é bastante peculiar a esta que vos escreve -, me convencer disso utilizando meu próprio argumento. Brilhante, diga-se de passagem:

- Deixa isso pra lá, entendeu? Continue seu trabalho e faça de conta que nem me viu hoje. Não há condições mesmo de cometer uma loucura dessas! Onde é que já se viu? Como é que vão puxar meu cabelo do jeito que gostam enquanto estiverem me comendo de quatro se eu acabar com ele, não é verdade?

Pois é.

Um espetáculo de argumento, eu disse.

Salão lotado, sim.

Oi, esta sou eu.

Fim.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

[Escândalo]

Escandalizei geral.

Quando todos esperavam que eu berrasse imprompérios a esmo, xingasse ao extremo, quebrasse o vidro de alguma janela com uma mão raivosa, pisasse na pata de algum gato distraído só pelo prazer de ganhar cinco doses de vacina, adotasse a clausura e a escuridão do meu eu intrínseco como meu mais novo lar, gastasse o dinheiro que tenho e que não tenho com roupas feitas somente para mim e cujas etiquetas trazem escrito o meu lindo nome, bebesse baldes de álcool sozinha ou acompanhada, escrevesse tratados extensos sobre como os homens são ou deixam de ser, sobre como eles agem ou deixam de agir, sobre como eles desejam e batem cabeça tentando fazer da forma que julgam ser a mais correta, sobre como eles te pegam, te jogam na parede ou sobre uma cama, te chamam de lagartixa e fazem de você uma lagartixa às vezes feliz, às vezes infeliz...

Eu vou lá e escandalizo bonito.

Entro numa loja grande, me perco no meio das possibilidades diante dos meus olhos, escolho algumas coisas e saio de lá com toalhas, linhas, rendas, fitas, revistas e mostro a todos, extasiada, o tipo de letra que escolhi e as cores das linhas que usarei para bordar meu nome naquele pedaço de pano que vai secar meu corpo nu, em breve. Dá até vontade de mostrar. A toalha, não meu corpo nu. Quase tenho um orgasmo de satisfação, precisa ver!

Agora passo o tempo extra de férias que ganhei me dedicando totalmente ao meu ócio produtivo, em poses cândidas e pensamentos absortos. Virei praticamente uma pintura de mulher inocente e seu bordadinho singelo, realize a cena.

As pessoas não me entendem. Acham que há alguma coisa errada comigo, que tudo bem que sou prendada e tal, mas que não é assim, está errado, onde estão as reações desconexas em cadeia, os rompantes e as atitudes que me fazem ser tão eu? Bando de insensíveis, viu?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

[Lenda]

Reza a lenda que as três estavam apenas pensando em tomar um porre de Coca Zero enquanto conversariam sobre suas respectivas fossas num lugar qualquer que não exista o pensamento em você lugar que não lembrasse nenhum dos três respectivos causadores das tais fossas. Aparentemente um garçom pessimamente intencionado colocou algum ingrediente do capeta nos copos, talvez pensando na vã tentativa de ver uma, ou duas, ou as três, subindo em cima das mesas ao som de uma música qualquer enquanto dissertavam sobre suas relações, né? Tolinho, tsc! Se era para discutir fossas, fossas seriam discutidas em meio a retoques de batons, quase choros e revelações bombásticas, nada mais do que isso. A não ser o tal ingrediente do capeta nos copos, claro.

Ainda segundo a lenda, as três resolveram tomar um táxi, após terem combinado que uma ficaria pelo caminho e as outras duas iriam juntas para o mesmo destino. União é tudo nessas horas, pessoas. Quando foi informado sobre o destino final, o taxista disse que teriam que explicá-lo como chegar até lá porque ele não saberia fazer aquilo sozinho. De acordo com a misteriosa lenda, foi então que uma delas se irritou profundamente e começou a interagir com a pobre criatura - coisa que, inclusive, ela nem sequer sabe fazer direito, muito menos fragilizada por uma fossa. Começou falando que onde já se viu aquilo, imagine se ela poderia se dar ao luxo de dizer, no trabalho, que teriam que ajudá-la, pois não ia saber fazer tudo sozinha? Não, não poderia. Então quem aquele sujeito pensava que era para obrigá-las a pensar, depois do tanto que já haviam pensado juntas, e se tinham escolhido um táxi justamente para evitarem toda aquela tensão que é estar num ônibus vigiando o local onde se deve descer? Que era um absurdo quase tão grande quanto o ato que desencadeou sua fossa aquele ser não ter notado o seu estado lastimável e, provavelmente, o seu batom borrado, o esmalte descascado, o fio puxado da sua meia-calça, preocupando-se em ir logo dizendo que não sabia fazer seu trabalho direito. Ameaçou contar sua história, o tempo que antecedeu a pouca luz e os sussurros velados, assim como os altos e baixos da mais sinuosa espera da sua vida. Por fim, terminou seu monólogo com um mas que porra, né? se eu soubesse como chegar ao meu destino sozinha não estaria dividindo o ar que eu respiro com um ser humano insensível como o senhor!

E foi aí que ele chegou às lágrimas. Sinceramente, ela não lembra das lágrimas. Estava tão empenhada em interagir com a criatura que só conseguia olhar para o seu próprio umbigo, mas lembra bem que as lágrimas não eram suas, pois estas secaram, você entende? Então pode ser que ele realmente tenha chorado, conforme diz a lenda.

[Adivinha qual das três foi a mulher que atiçou a veia sensível de um taxista numa noite gelada de inverno?]

[P], arrancando lágrimas de trabalhadores honestos desde milnovecentosealgumacoisa.

[Juro que não queria, tá? Maldita Coca Zero...]

terça-feira, 16 de junho de 2009

[Dona C.]

Dona C. é a típica senhora simpática que me ajuda nos afazeres domésticos e faz o que pode e o que não deve para me encher de mimos, alegando que sou a filha que ela não teve. Até bem pouco tempo atrás dizia que, se não sou filha de verdade, bem que poderia me atrever a ser a nora-que-ela-tanto-pede-aos-céus. Dona C. pariu três filhos, todos maiores de idade, todos com pós-graduações, empregos estáveis, vidas relativamente estruturadas e livres de qualquer tipo de vício, amém, como ela costuma dizer.

Uma vez Dona C. queria me mostrar uma foto recente que os três tiraram juntos. Mas eu sou esperta, né? Deus-me-livre de ver uma foto de qualquer um dos filhos de Dona C. Vai que não estou preparada, não é mesmo? Inventei desculpas plausíveis e argumentos imbatíveis, de modo que ela guardou a foto na bolsa diante da minha resistência. Expliquei que o mais novo é novo demais, que o mais velho é, bem, velho demais e que o do meio é do meio demais - imbatíveis, como podemos ver - e que, por causa disso, não valia a pena vê-los nem em foto, mesmo com a alegação de que nem o mais novo titubearia ao ter que resolver entre uma debilóide de dezessete anos e eu.

[Sim, eu divido certas coisas profundas da minha alma com Dona C.]

"Não estou preparada para lidar com os homens da vossa estirpe, Dona C.; eu não saberia onde enfiar as mãos ou o que fazer com minha língua", expliquei. Ela tentou retrucar, alegando que mãos combinam com zíper e que língua combina com zíper também e eu não me atreveria a tentar entender o raciocínio da Dona C., é óbvio. Além disso, parece que o mais novo tem a cabeça que o mais velho devia ter, que o mais velho tem a aparência que o mais novo queria ter e que o do meio deve ter o pênis que os irmãos adorariam possuir, segundo o pensamento dela.

[Discrição, esta palavra desconhecida do vocabulário de Dona C.]

Outro dia ela estava na sala e eu cheguei, assim, como direi... alterada da rua. Bem alterada, para ser mais exata. Problemas mal resolvidos por causa de incompetência alheia, basicamente. E eu tinha que trabalhar mais ainda, não é? Claro, porque chego do trabalho e o que me espera é mais trabalho. Não é assim com você, não? Que estranho... Enfim, eis que no meio de uma papelada qualquer encontro um recado malcriado que me deixa mais descompensada ainda. Daí explodo, sabe? Mais forte do que eu. Bora explodir junto comigo? Explodi em forma de três palavrões berrados seguidamente numa entonação atropelada e cheia de emoção enquanto rasgava não só o tal papel com o recado, mas outras coisas que não deviam ser rasgadas e que só percebi depois, evidentemente.

[Desequilíbrio: coadjuvante que contracena comigo nas cenas mais dramáticas que a Televisa me obriga a vivenciar]

Só depois dos estilhaços espalhados pelo chão é que me lembro de Dona C. que, a esta altura, é uma estátua simpática diante dos meus olhos. Não sabia se olhava para o chão, ia para o banho, assumia minha perturbação de cara lavada, comprava o seu silêncio com uma de minhas calcinhas que ela tanto elogia, ou tomava o rumo da rua, como se nada tivesse acontecido. Foi quando ela respondeu meus pensamentos sem que eu tivesse formulado a pergunta e disse "imagine se um ser humano como a senhora não teria estes momentos de provas na vida, dona [P]! Mesmo POSSUÍDA, a senhora continua fina, um primor. Tenho certeza que meus filhos precisam é de uma mulher assim, do tipo que INCORPORA A LOUCA e vira a mesa num restaurante lotado, sem descer do salto".

[Agora me diz: tem como não amar uma mulher assim? Alguém manda esta criatura parar, viu?]

terça-feira, 2 de junho de 2009

[Adrenalina]

Das coisas que me fazem crer que o meu trabalho é adrenalina pura:

A.
É o típico príncipe encantado, fisicamente falando. Ah, aquele cabelo loiro, ah, aqueles olhos azuis da cor do mar, ah, aquela boca imunda... A. se sente O cara, mas toda a sua realeza desce ao nível do pântano e ele mostra o verdadeiro sapo de dezessete anos que é escondido debaixo da capa dourada quando abre a boca para reclamar que sempre é expulso injustamente, que Diretor pega muito no pé dele e que um colega, de Matemática, é outro viadinho que adora tirar ele de sala à toa. Assim, nestes termos. Mundo injusto, o dos contos de fadas em que A. vive e onde acha que pode fazer e acontecer. Pobre A., pobrezinho.

D.
Ele tem uma banda, vinte e dois anos de uma quase total timidez, toca guitarra e é dono de uma educação que destoa gritantemente dos demais. Ultimamente, por precisar de uma quantia considerável para comprar um amplificador, anda dizendo que está vendendo até o corpo. Numa escala feita por ele mesmo, o valor do seu corpo variaria de acordo com a parceira. Eu, por exemplo, pagaria o valor simbólico de um real, só para não me sentir ofendida por ter usufruído dos seus préstimos gratuitamente. Um primor, D., não fosse o fato de estar interessado na moçoila que vem com letreiro em neón sobre sua verdadeira vocação nesta encarnação e que não lhe dá a mínima porque, ora, ele é certinho demais. Eu também achava, eu também achava. Até a hora em que os olhos verdes dele brilharam quando insinuou que me amarrar em algum lugar seria uma maneira interessante de ir juntando o dinheiro para comprar o amplificador, de um real em um real.

M.
Vinte e poucos anos, dez deles passados em seguidas repetências, mãe de dois filhos, marido presidiário. Numa ocasião, em meio a um monte de oficinas sobre drogas e doenças sexualmente transmissíveis, M. deu um show. Explicou como se faz o crack, com informações pormenorizadas sobre a porcentagem de cada item necessário na fabricação da droga, inclusive. Também nos forneceu dados sobre outras drogas, indicou os lugares mais acessíveis e menos perigosos para conseguirmos o que quer que desejássemos, citou preços, horários apropriados e terminou sua explanação reclamando de uma visita que fez a um museu, quando precisou ser revistada. Sorria enquanto explicava que, se ela quisesse, esconderia o que fosse e ninguém ia saber, pois suas visitas ao presídio estimularam sua esperteza. A contradição nisso tudo é que M. é ótima, participa, é educada, não cria atritos e não ofende ninguém. Ela vai conseguindo boas notas até agosto, setembro, quando desaparece para só dar o ar da graça no ano seguinte. Parece que precisa estar matriculada, por questão de segurança. O emprego dela exige isto. Sabe quando M. vai nos deixar em paz? É, nunquinha.

F.
Exala Testosterona por todos os seus poros. Sua última façanha, até então mantida em sigilo pela Direção, foi engravidar uma ficante com quem saía esporadicamente. Até aí tudo bem; afinal, tão comum engravidar uma qualquer com quem você transou depois de uma bebedeira qualquer numa noite qualquer, não é mesmo? Tão inteligente, tão perspicaz, isso é tão, tão... Testosterona, não? Daí que em certa ocasião F. estava me esperando na rua. Perguntou se eu já estava sabendo o que ele tinha feito e se estava feliz com isso. O que a gente responde numa hora dessas, né? Mas o mais legal foi ter ouvido que a culpa era minha, claro. E que ele tinha escolhido a rua porque lá eu não ia poder fazer uso de nenhuma expulsão. Muito digno, muito mesmo. Acrescentou que só transou com uma estranha sem qualquer tipo de prevenção porque não ia conseguir trepar com a intocável da [P] mesmo e, antes de virar as costas, encerrou o monólogo com um se eu fosse você, morreria de culpa.

Assim, numa boa, eu precisava mesmo de mais uma culpa no meu currículo. Eu já me sentia culpada pelas expulsões, pelo alto preço de um amplificador, pela falta de noção do ridículo que a moçoila com letreiro em neón faz questão de exibir, pelo preço oscilante das drogas, puxa. Agora também me sinto culpada por uma foda qualquer cujo fruto virá ao mundo em seis meses. Só estou com dúvida sobre como prosseguir daqui por diante: continuo carregando todas as culpas do mundo ou saio dando? Dando menos expulsões, dinheiro para quem precisar, noções de etiqueta e comportamento para as perdidinhas?

[Não posso trabalhar à distância, não? É adrenalina demais para o meu gosto...]

terça-feira, 26 de maio de 2009

[Pérolas]

1) Das redundâncias da vida:

[Claro! Assim como se a pergunta fosse "qual a semelhança?", a resposta ideal seria algo como "é que eles são semelhantes"!]

2) Dos neologismos do dia-a-dia:

["Locumoção?" "Locumover"? "Movumentação"? "Movumentar"? Dá até medo de continuar imaginando...]

3) Do realismo comovente:

[Jura? Da mesma maneira que alguns facilitam as coisas para mim e outros têm o dom de dificultar as minhas correções?]

4) Dos subornos explícitos:

[Não vale, ok? Isso de anexar bilhetinhos às avaliações só para me fazer chorar é golpe baixo, haja visto que choro lendo bula de remédio e rótulos de margarinas, atualmente]

5) Do linguajar charmoso:

[Como assim "mar crece"? Será que eu seria a pessoa "mar paciente" e "mar bondosa" no manejar de uma caneta vermelha? Coisa "mar linda", não é, não?]

quarta-feira, 13 de maio de 2009

[Primo Pastor]

Tenho um Primo Pastor que é oito anos mais velho do que eu. Sempre fomos muito ligados e, com o tempo, esta ligação se estendeu à Esposa de Primo Pastor. Com ele aprendi a ouvir Legião Urbana na adolescência, época em que nem sonhava em ser Pastor, mas sim jogador de futebol. Com ela aprendi que ser calma é uma arte que se adquire com o tempo e que as pessoas me fazem um bem maior dizendo a verdade, e não as coisas que eu gostaria de ouvir.

Ambos apareceram às pressas quando souberam do meu acidente. Queriam ver se eu estava inteira mesmo, porque Genitor deve ter pintado tudo com cores muito berrantes, como lhe é bem peculiar. Eles me viraram do avesso e perguntaram certas coisas para ver se todos os meus parafusos estavam em ordem. A maluquice é algo intrínseco à minha árvore genealógica. Primo Pastor quis saber, por exemplo, o nome do cidadão que desprezei numa excursão que fizemos lá pelos idos do século passado, só para ter a certeza de que não havia sofrido repentina amnésia, e me pediu para cantar Giz, como eu fazia antigamente.

Quando disse que me lembrava também que costumo dançar em cima das mesas nos meus momentos de lazer, Primo Pastor falou que tive muita, muita sorte, porque o estrago foi grande, muito grande, e não sofri nada. Acrescentou que olham muito, muito por minha pessoa, em todos os momentos da minha vida, pois só isto justifica o fato de eu ser uma coisa muito do demo e sair ilesa de um enfretamento com um caminhão e um abismo.

[Coisa do demo. Meiguice total, Primo Pastor. A gente só perdoa porque sabe como é, né? Sangue do meu sangue, de primeiríssimo grau...]