segunda-feira, 26 de março de 2012

[Arrogância]

Do alto do seu pedestal, Arrogância finge me ignorar, do mesmo jeito que eu fingia acreditar nas frases feitas e nos eu te amo baratos escritos no espelho embaçado que poucas vezes me viu sorrir. Se ousasse me encarar de frente, Arrogância se assustaria com o vermelho do meu batom e com meus modos de puta contida, tão diferente do tipo de puta que, agora sei, Arrogância prefere. Se conseguisse se mexer, tenho certeza que Arrogância cobriria os olhos com uma das mãos e gozaria para mim com a outra, assim que as luzes da cidade refletissem minha silhueta diante de si. Arrogância, no entanto, não pode se mexer. Arrogante demais para ensaiar um passo fora do seu pedestal, entregue ao vento e à escuridão das noites sem luar, não quer se mexer. Arrogância se parece com uma velha cafetina que, não podendo me dar os prometidos finais felizes, me entregou aos homens que me chupam e me fodem enquanto recito poemas de amor. Sei que Arrogância pode me ver pulando o muro que nos separa. Do alto da sua ignorância, Arrogância pode tudo. Pode me ver tirando a calcinha e me esfregando no seu coração de concreto. Se não fosse tão soberba, eu poderia sugerir que abaixasse a cabeça e me visse trepando com amores que não durarão para sempre. Conheço o tamanho do vazio que Arrogância carrega dentro de si e que, às vezes, transborda pelos seus olhos, pela sua boca e até pelos seus bolsos. Arrogância, no entanto, é fraca demais para me encarar como inimiga e prefere me xingar em pensamento com palavrões que só fazem me excitar. Encravada no seu pedestal, Arrogância insiste na desequilibrada pose dos medrosos e na falsa classe dos imbecis. Humildemente, Arrogância, peço licença para pichar um covarde em tinta vermelha, no seu pedestal triste e solitário, lambendo o contorno das minhas letras com a língua que você, tão arrogante, agora só pode ver no céu de outras bocas.

terça-feira, 20 de março de 2012

[Capas - II]

Um livro. Com uma capa bonita. Bonita, a capa do livro. Ao que tudo indica, é um livro com conteúdo. Pelo menos foi isso que minhas primeiras impressões me fizeram pensar. Eu vou passando as páginas devagar, lendo linhas e entrelinhas e me perguntando se mais lá na frente, na página 283, por exemplo, não vou cair na armadilha do bom conteúdo, bela capa e desfecho trágico. 

[Mesmo assim, eu seguiria com a leitura. Tudo me faria seguir com a leitura, não fosse um pequeno detalhe: trata-se de um e-book]

quarta-feira, 14 de março de 2012

[Capas]

Mandei que fizessem um trabalho sobre o assunto em questão e, ao me aproximar de dois meninos, falei para um deles olhar como o do colega ao lado estava bonito. Aí você vê, né? São meninos. Deve ter sido por isso que, ao me entregar o seu, o menino com quem eu havia falado me pediu para que lesse o que havia escrito:


Quero dizer que nem adianta, ok? Nem vem, agora já sei como é e não caio mais nessa. Por anos eu valorizei o interior dos livros, o conteúdo dos livros. Por anos eu busquei me surpreender com o que os livros tinham a oferecer. Por anos a fio eu julguei os livros não pelas suas capas, mas pelo que havia em suas páginas. Olha, deu no que deu. Ou seja, não deu.

Não custa nada dar uma olhada na capa, eis a lição que aprendi ao longo dos anos. Se, depois da capa, vier uma historinha infantil ou uma história mal contada ou uma história cheia de erros de ortografia ou letras de músicas de gosto duvidoso ou palavras arrogantes ou alguns outros ou que fazem de mim esta pessoa um pouco exigente, é só desistir de ler o livro. Parece simples. De repente funciona. Não me custa olhar as capas.

[Capas, sejam atraentes, me provoquem arrepios e me façam pensar uau, este é o livro que eu levaria para minha cama e leria toda noite mas, por favor, capas, não sejam isso, tá? Livros sem conteúdo, por mais bonitos que sejam, não servem nem para enfeitar minha estante]

quarta-feira, 7 de março de 2012

[Palmadas]

Ainda sobre aquela coisa de estar disposta a levar umas palmadas para ver se aprendo um pouco das coisas da vida, não custa nada deixar registradas as minhas exigências: de quatro, mãos masculinas boas de pegada, qualquer coisa de selvagem, gemidos, alguns puxões no meu cabelo e meu nome sendo repetido com diferentes entonações, acompanhando o vaivém dos corpos suados.

[Se fossem apenas umas palmadas - dadas por qualquer um e de qualquer jeito - não seria eu, né?]

sexta-feira, 2 de março de 2012

[Quatro Anos]

Quatro anos. Não são quatro dias, ou quatro meses. São quatro anos. Em quatro anos eu fiz uma Graduação. Em quatro anos eu fiz duas Pós. Eu tive um relacionamento que durou quase quatro anos. Enfim, estou me perdendo. O fato é que são quatro anos.

Aí eu chego lá, depois de duas semanas de ausência e, tão logo sento no sofá, cruzo minhas pernas, ajeito minha sainha jeans e ponho a almofada de sempre no colo, ela começa com as perguntas:

- Como foi seu Carnaval, [P]? 

Eu começo a chorar.

- E aquele problema no seu trabalho? Conseguiu resolver?

Choro.

- E lá? Continua frequentando aquele lugar? Alguma novidade?

Continuo chorando.

- E Fulano? Como estão as coisas entre vocês?

Não paro de chorar. Não paro, não paro, não paro, não.

Passei meia hora chorando. Meia hora deixando escorrer pelo meu rosto todo o esforço do último desses quatro anos, quando consegui me aproximar do que seria considerado um equilíbrio satisfatório para minha pessoa. Gastei meia hora - dos cinquenta minutos que eu tinha - acabando com o estoque de lencinhos dela. Tão prestativa, tadinha, me entregando sua caixa de lencinhos.

[Agora é aquela hora em que você imagina como eu saí da sessão. Como levei mais tempo em frente ao espelho do banheiro, porque tinha que dar um jeito no meu rosto. Imagina qual era o meu estado enquanto descia o elevador]

Na portaria do prédio, o senhorzinho que me vigia há quatro anos pelas câmeras de segurança estranhou quando me ouviu dizer apenas até logo. Nesses quatro anos, era sempre tchau, Seu Sicrano, até semana que vem, acompanhados de alguma observação que eu julgasse relevante no momento. Ele, por sua vez, sempre me chamava de filha e me mandava ir com deus.

Foi então que o inusitado aconteceu. O porteiro do prédio que frequento toda semana - prédio este onde gasto um bocado de reais para ser ouvida e ouvir, dentre outras coisas, que estou precisando de umas palmadas, mas é claro que isso não vem ao caso - veio até mim e me deu um beijo na testa. Junto com o beijo na testa, o bônus em forma de palavras de incentivo: não tenho que ficar assim, tudo vai passar, já estive pior durante o tempo em que nos conhecemos da portaria do prédio e consegui dar a volta por cima; é claro que vou conseguir outra vez, nem que para isso - nesta parte ele foi bem enfático - eu leve mais quatro anos.

[Melhorei consideravelmente depois disso, hein? Era tudo que eu precisava escutar, concorda? Não faz parte dos meus planos decepcionar o senhorzinho e, além do mais, quatro anos é muito tempo. Tenho que dar um jeito de acelerar o processo. Estou aceitando até levar as tais palmadas para ver se aprendo...]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

[Só De Mim]


Eles gostaram de mim. Você, que duvidava que isso pudesse acontecer, seria capaz de dizer os motivos pelos quais não gostariam? Olhe só para mim. Eles gostaram, é claro. Cheguei - e não é de hoje - exatamente onde planejei chegar, quando ainda era uma universitária que matava aulas chatas de Sociologia. Eles não sabiam disso, é claro. Mesmo assim, se soubessem, eles gostariam das minhas matanças de aulas chatas. Eu posso ir a qualquer lugar que me atraia e, se não fui a todos que desejo ir, é só uma questão de tempo, você sabe. Eles gostaram de mim por causa disso: pelo fato de eu poder ir até eles, onde quer que eles estejam, usando minhas próprias pernas, meu próprio carro e meu próprio sentido falido de direção. Entretanto, sabe do que mais eles gostaram em mim, na minha humilde opinião? Gostaram porque não tenho um código de barras impresso na minha pele, não faço demonstrações explícitas da minha embalagem, não estou em prateleiras à espera de um par qualquer de mãos que me toque, me leve para casa, me prove e me descarte quando meu gosto começar a enjoar. Não estou à venda e nem sequer me empresto com facilidade. Quem já tentou sabe o quanto é difícil me fazer abrir. E, olhe, foi de mim que eles gostaram. Talvez porque eu não estivesse lá para experimentar águas geladas só pelo prazer de chamar a atenção. Talvez porque, contida, eu soltei uns palavrões apenas em pensamento e, assim, todos se perguntaram quem era aquela estranha, aquela ali, quase incógnita, com um vestido florido e pés descalços. Era eu. Eram meus pés.

[Não importam quantos pares de pernas e quantos pés descalços eles tenham à disposição. Dentre todas as mulheres, os mosquitos assassinos me escolherão. As outras serão somente outras, se eu estiver por perto. Você não gostaria de mim? Eles gostaram. Não adianta. A regra é clara]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

[Dividindo]

Não sei como isso foi acontecer. Eu estava lá, num dos meus intervalos, com uma xícara de chá na mão e, desconfio, a chave do mistério só pode estar no chá oferecido pela criatura que, instantes depois, conseguiria arrancar da minha pessoa uma concordância com algo que, em sã consciência, eu não aceitaria de jeito nenhum. Não sei o que ela colocou no chá. Provavelmente algum tipo de alucinógeno que deixou meus neurônios transtornados a ponto de não conseguirem mais soletrar uma combinação muito simples de três letras e um til: n-ã-o.

Só isso explica - presta atenção - o fato de eu ter concordado em viajar para um lugar que, segundo já me disseram, estará cheio de gente no carnaval e, ainda por cima, dividindo uma casa que, por maior que seja, me fará interagir com seres humanos, mais cedo ou mais tarde, durante vários dias. Porque, olha só, não basta muita gente na cidade, entende? Pelo que meu cérebro conseguiu reter, há um número considerável de pessoas aleatórias com quem irei dividir mesa, cadeira, máquina de lavar roupa e oxigênio. Acho que me superei. É uma loucura de proporções épicas na minha vida. Estranho, muito estranho, que eu só tenha me preocupado com duas coisas vitais: água potável e internet. Lembro que fiquei lá, toda trabalhada no alucinógeno diluído no chá, repetindo tem água potável? e internet?,  até que me desse por satisfeita.

Parece que há internet e água potável na casa. E agora também terá uma série de listas espalhadas pelos seus pontos estratégicos, já que não me controlei e comecei a preparar um sistema de rodízio de tarefas, cuja função secreta será me manter o mais distante possível dos seres humanos. Quase pedi a planta da casa para ter a certeza de que estou fazendo os cálculos corretamente mas, como tenho uma veia kamikaze, fiz tudo no improviso. Espero, por exemplo, que a pia fique bem distante do fogão, para que eu não tenha que lidar com quem quer que esteja lavando a louça enquanto termino de preparar minha sobremesa dos deuses. Tudo tem que estar bem distante. Em cômodos diferentes, de preferência. Ninguém correrá o risco de ser mordido, se assim for.

Que tipo de pessoa aceitaria dividir uma casa com uma estranha e seu estranho rodízio de tarefas domésticas? Não sei, também estou me perguntando isso. O fato é que não só aceitaram, como estão loucos - é a palavrinha ideal, hein? loucos - para me conhecer, pois a fama da minha fofura é algo que se espalha na velocidade da luz e transcende qualquer entendimento. Informações preliminares dão conta de que andam rindo e se perguntando quem é esta mulher que acha que conseguirá pôr ordem numa casa cheia, em pleno carnaval.

[Está meio na cara que vão me detestar, hein? Tenho tudo para ser a detestável preferida da galera, você sabe]