terça-feira, 23 de março de 2010

[Das Estranhas Criaturas]

Jude Law versão 2.1, uma das estranhas criaturas que vieram do Planeta dos Três Estagiários para se colocarem sob meu domínio, me fez a seguinte pergunta, numa conversa informal de bastidores:

- Então me diz, [P], com sinceridade, quantos anos de escola e períodos de faculdade você andou pulando, para termos praticamente a mesma idade e eu ainda estar terminando a monografia, enquanto você já é minha chefe?

[Cara, onde assino a aprovação automática desta criatura?]

quarta-feira, 17 de março de 2010

[Aquela]

Eu sou aquela que não pode ver uma caixa de papelão em condições físicas perfeitas, porém, visualmente horrorosa. Aquela que não se controla, ainda que esteja no seu local de trabalho. Aquela que vai sondar se ninguém quer a tal caixa abandonada. Aquela, aquela mesmo, a que vai pegar a caixa no intervalo e levá-la para o carro feliz da vida, já pensando na parafernália que vai precisar comprar para enfeitar seu brinquedinho novo. Aquela que vai levar dias fazendo arte porque esqueceu-se que, oi?, não há tempo sobrando para fazer arte somente quando já tiver começado a melecar a mão de cola. Aquela que fica realizada quando - finalmente - põe a última fita no seu devido lugar:

Eu também sou aquela que tem master orgasmos quando entra em papelarias. Entretanto, sou aquela que não se contenta com qualquer caderno. Não, não. Sou aquela que não encontra um caderno que a agrade decentemente. Aquela que vai revirar estantes e deixar funcionárias descabeladas. Aquela que tem astúcia o suficiente para, depois de deixar todos loucos e perceber que não é bom negócio sair de cena com as mãos abanando, escolher qualquer caderno com a maior cara de contente. Aquela que precisa dizer porra, gente, não aceito encomendas, não tenho tempo, só porque é aquela, aquela mesmo, a que tem o caderno mais fofo dentre as pessoas que a cercam, com marcador, elástico e capa guti-guti:




[Notemos a participação especial das bolinhas de papel apreendidas recentemente no meio do expediente e cujo conteúdo foi devidamente distorcido, não só para preservar a identidade dos autores como também para evitar um choque coletivo. Afinal de contas, se não podemos ler palavras como "complexa", "específica", "contradizendo" e outras de nível parecido em avaliações, como reagir quando elas surgem espontaneamente, numa conversa voadora?]

Como podemos observar, sou facilzinha, me contento com pouco e faço milagres. É só me dar uma caixa de papelão de presente ou um caderno de capa feia. Ou então me dê uns minutos na cozinha e faço comida, viro comida, tudo ao mesmo tempo. Ou me dê meia dúzia de palavras bonitas e faço um texto com as mentiras sinceras que não me interessam. Eu sou aquela, a que sabe lavar, passar, arrumar, desarrumar, costurar, pintar e bordar. Aquela que dirige cantando, que tem uma língua não muito ortodoxa e que cai de quatro, levanta, vira as costas e sai andando. Aquela, aquela mesmo, do tipo que você não vai encontrar em qualquer esquina e, quando encontrar, não saberá onde colocar as mãos.

[Talvez dentro da minha caixa. Talvez sobre meu caderno. Talvez no meio das minhas pernas. Eu sou aquela, né? Vai saber...]

quarta-feira, 10 de março de 2010

[Arte]

Era uma vez duas mulheres: Descompensada e Descontrolada.

Descompensada, como a própria alcunha sugere, dispensa apresentações. Gosta de ficar sem fazer nada, embora esteja sempre procurando algo para fazer, de chantilly, de Coca Zero, de mar, de cadeiras estranhas, de mandar e de ser obedecida, dentre outras coisas. Por outro lado, não gosta de Descontrolada.

Descontrolada, como o próprio nome sugere, gosta de esbanjar descontrole motor-psicológico-financeiro-e-emocional. Ao que tudo indica, passou a odiar Descompensada.

[Não sabemos o motivo já que, segundo consta, embora seja uma bomba-relógio prestes a explodir, Descompensada explode glamourosamente, de modo que todo mundo acha aquelas faíscas uma coisa espetacular]

Descompensada gosta também de inventar coisas lúdicas, dentro das quais esconde tudo o que acha que seus subordinados precisam aprender, numa tentativa de abduzi-los e testar experiências que farão com que utilizem partes dos seus cérebros nunca antes utilizadas, a não ser quando se trata do que lhes convém [msn, orkut, funk, bolas de papéis com conteúdos confidenciais que criam asas e saem voando vezemquando - tudo coisa do mais alto nível em termos de preocupação com os estudos, como podemos observar].

Pois bem. Quis o Universo e os Roteiristas da Televisa que Descompensada fosse a chefe e Descontrolada, a chefiada. Num dia inspiradamente lúdico, a chefe pediu para que a chefiada fosse buscar algumas coisas que estavam faltando para que o maternalzinho em forma de adolescentes pudesse começar a trocar vibrações positivas que, através de incentivos em forma de canetas azuis na dose certa, provocariam explosões de saber por todos os seus poros. Lembro bem que Descompensada bancava a fina e pedia educadamente, quando Descontrolada a interrompeu, alegando que não poderia ajudar porque tinha acabado de sair do salão, suas unhas estavam leeeeeeeennndas e não ia correr o risco de pôr as patinhas mãos nas tintas que poderiam estragar aquela belezura toda.

- Se você tomar cuidado, não vai estragar nada.
- Ah, vai dar não, [P]. Pede para outra pessoa. Por que EU é que tenho que fazer isso?
- Porque não posso sair desta sala agora, senão sangue jorrará pelo ambiente. Porque você não está fazendo nada e é minha estagiária. E porque eu estou mandando. Três razões.
- Ah, é? E quem você pensa que é para mandar em mim?

Reza a lenda que, neste instante, Descompensada deixou a sala do maternalzinho disfarçado de adolescentes, foi sozinha pegar o material que estava faltando, jogou tudo em cima da mesa, abriu dois vidros de tinta, molhou os pincéis, tomou entre as suas mãos as patinhas mãos de Descontrolada, incorporou o Van Gogh que todo ser humano deve guardar dentro de si e produziu obra-prima sobre o esmalte da chefiada, sob o olhar atento da platéia que, a partir daquele instante, deve ter notado que desobedecer é coisa de crianças más.

[Toda trabalhada no glamour essa tal de Descompensada, é o que eu sempre digo]

Descontrolada, possuída por um começo de mimimi-você-é-malvada-mimimi-vou-contar-tudo-pra-Diretor-mimimi-você-é-boba, pedia uma explicação com o olhar pois, ao que tudo indica, ela não consegue pegar no tranco em situações adversas e verbalizar em língua inteligível o que chama de raciocínio.

- Como eu estava dizendo antes de você me interromper, sou aquela que manda em estagiárias e suja o esmalte de quem se recusa a obedecer - foi a explicação.

Fim.

terça-feira, 2 de março de 2010

[Chefia]

Aparentemente as três estranhas criaturas vieram de um planeta bem distante: o Planeta dos Três Estagiários. Não sei em que condições vivem, do que se alimentam, como fazem sexo e desconfio até mesmo de que falam algum dialeto que me soa um pouco estranho.

Problemática chegou com um único objetivo e não, não é o de causar problemas, mas sim espalhar seus problemas pessoais sobre mesas de trabalho como se não houvesse amanhã. Problemática não faz sexo, é óbvio. Estranho. Jude Law versão 2.1 é o cúmulo da concentração. Um concentrado de tudo o que se pode imaginar. Tire suas próprias conclusões. Muito estranho. Descontrolada já deixou claro a que veio: seguir Jude Law versão 2.1 e só. Totalmente estranho.

A grande questão é: podendo escolher entre quatro - veja bem, eu disse q.u.a.t.r.o - profissionais, por que, por que, oh céus, as três estranhas criaturas escolheram justamente esta que vos escreve para chefiar suas respectivas missões fora do Planeta dos Três Estagiários? Saldo devedor que tenho para com alguma vida passada, eu respondo. Porque, né?, só isso justifica.

O mais legal, porém, foi ouvir as justificativas da escolha de cada um: Problemática total se identificou comigo e acha que poderemos ser, além de colegas, grandes amigas e blábláblá, porque assumi logo de cara uma postura sincera e tal.

[Não vejo a hora de despejar toda a minha sinceridade e poder explicar que não senti uma vibração positiva na sua alma, que não consigo me identificar com uma adulta moribunda E que não faz sexo e, por fim, perguntar que roupas são aquelas que ela ousa vestir antes de sair de casa]

Jude Law versão 2.1
concentrou toda sua justificativa em duas palavras: porque sim. Tenso. Se eu perguntasse por que saiu do Planeta dos Três Estagiários diretamente para meu local de trabalho, me responderia porque sim, tenho certeza.

[Na verdade ele não quis dizer, na frente de todos, que é porque tenho o tal rostinho de tarada e, além de tudo, sou comprovadamente legal, lógico]

Descontrolada, por sua vez, disse que escolheu a mim porque fala sério, né, gentemmmm? qual o nome desse esmalte roxo que você está usando, mulherrrrr? e que cabelo de comercial de shampoo você temmmm!

[Vamos pedir piedade e força, muita força, para Jude Law versão 2.1 nos próximos meses de convivência com este exemplar não-catalogado de ser vivo. E quanto a mim? Evidentemente que, sendo a chefe, quem precisa temer alguma coisa é Descontrolada]

Permitirem que eu assumisse o comando numa situação extremamente delicada como esta é algo que até o momento escapa à compreensão. Não sei se tem a ver com um papel que deixaram nas nossas pastas pessoais, no qual se lia um edificante top dez de como ser zen no seu local de trabalho. Não sei se estão me testando só para ver se consigo demonstrar todo o meu glamour em situações de risco. Não sei.

[Só sei que sinto que trabalharemos muito a questão do constrangimento geral enquanto for obrigada a interagir com as três estranhas criaturas. Ou seja...]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

[Ensinamentos]

Se nem sequer iniciamos a utilização das canetas vermelhas, só posso concluir que começo a desenvolver uma nova habilidade: cativar sem compromisso e de forma indolor.


Como fiz isto, você me pergunta. Não sei, não sei. Apenas era um dos primeiros encontros com aquele grupo e achei digno, ao invés de ficar só naquela coisa costumeira de métodos e exigências, explicar a todos as coordenadas básicas do meu ciclo de tpm, do meu signo light, além das principais noções sobre como agir quando meu nível de descompensação estiver nas alturas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

[Mistério]

Meus primos passaram no vestibular. Madrinha de Blogueira [aquela pessoa sensata que filosofa sobre o tamanho das calcinhas que a afilhada usa ou deixa de usar e que prepara pratos d.i.v.i.n.o.s, creio que, justamente, para que eu possa caber naquelas coisas que ela gostava de comprar], toda orgulhosa dos rapazes fofos, educados, inteligentes e guti-guti-da-mamãe, preparou um almoço para comemorar. Somente parentes mais íntimos e as respectivas namoradas dos meninos.

A certa altura, mais ou menos quando eu me encontrava num dilema sobre continuar comendo sobremesas ou guardar a pouca dignidade que me restava e tomar o rumo de casa, as meninas me chamaram. Queriam falar seriamente comigo. Tinha que ser em algum lugar reservado. Gostariam que eu fosse sincera. Tudo muito tenso para o meu gosto.

Pelo que pude perceber, a nova fase da vida em que meus primos vão entrar está preocupando a ambas. Sabe como é, né? Novos horizontes, novas amizades, novas experiências, novas possibilidades, um par de olhos azuis dirigindo seu próprio carro, outro par de braços musculosos andando à solta por uma faculdade e por aí vai. Sim, sei como é, claro. Então, já que conheço os meninos há mais tempo do que elas, qual seria minha opinião sobre o rumo dos relacionamentos de agora em diante? O que elas deveriam fazer? Como agir, etc etc etc?

Explicar que minha bola de cristal está em manutenção não foi proveitoso. A pressão era tanta que quase cheguei a dizer que, quanto a você, Fulana, acho que não precisa se preocupar, pois somos muito parecidas no quesito interior da coisa e, creio, meu primo não irá trocar alguém como você por uma qualquer [isso aí, de vez em quando eu me supero, estou sabendo]; já quanto a você, Sicrana, acho que não custaria nada tentar alguns concursos, terminar o que deixou pelo caminho, dar um jeito nessa barriga, enfim, evoluir, sabe?

Quase cheguei a ser sincera, quando uma delas falou aquilo que revolucionou totalmente o meu modo de me olhar nos espelhos da vida:

- Queríamos saber qual é o segredo, [P]. É que a gente acha que tendo jeito de anjo e rostinho de tarada você consegue manter o homem que quiser aos seus pés.

[Ah, tá. Então era disso que elas estavam falando...]

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

[Das Coisas Inexplicáveis]

Abri meu e-mail e encontrei duas mensagens do indivíduo. Por algum motivo até agora não elucidado, não sei como liberei meu e-mail para um indivíduo altamente bêbado ou profundamente possuído pelo pó, ou as duas coisas simultaneamente. Partindo do pressuposto de que não me lembro exatamente como tudo aconteceu, algo alarmante começa a me preocupar porque, vejamos, a possibilidade de ter havido algo que nem sequer faço idéia de como tenha se desenvolvido me assusta. A você não?

Recordo vagamente que a idéia original era me afogar em copos de Coca Zero com gelo enquanto desabafava sobre o roteiro toscamente escrito por aquele povo da Televisa que entrou numa de alternar estados agudos de felicidade da minha vida com momentos fundo do poço nada glamourosos, quando o indivíduo se aproximou e roubou meu lugar de estrela decadente, utilizando uma lábia e uma história de vida deveras triste.

Como deram atenção ao indivíduo é outro mistério sem explicação, de modo que eu, de longe, olhava aquilo tudo muito chocada e me sentido relegada a segundo plano [logo eu, esta criatura mimada, arrogante, presunçosa e que só sabe olhar para o seu próprio umbigo, não é verdade?]. Ah, vai! Você que me lê nem desconfia de que tenho um plano secreto que acalenta minhas noites insones, envolvendo estrelato internético e capas, muitas capas de revistas? Tsc tsc tsc...

De que maneira duas mensagens com um quê de auto ajuda foram parar na minha caixa de e-mail é, por outro lado, algo pertinente. Desconsiderei a possibilidade de ser um spam. Como fiz isso? Quando li o título da primeira: para a menina que dança em cima das mesas.

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Oi?

Não dá para acreditar que virei amiga de infância do bêbado do pó a ponto de contar sobre mesas porque, minha gente, se há algo de profundo apelo sentimental e que exerce uma força dos infernos sobre mim é o assunto mesas & músicas. A não ser que você seja meu amigo de fé, meu irmão camarada ou leitor do meu blog, nunca, jamais, em tempo algum, saberá do espírito que se apodera do meu corpo quando vejo uma mesa, seja ela de que material for [imagine uma daquelas enferrujadas de bares sujos tipicamente universitários e conclua por si só minha euforia diante da sensação de me libertar e correr o risco de cair e quebrar um braço, para ficar somente em um exemplo] e esteja ela onde estiver [insira aí meu local de trabalho, num daqueles raros momentos em que me vejo só, apenas eu e meu fone de ouvido].

O indivíduo citou músicas, inclusive uma a cuja coreografia estou doando todo meu suor no momento [ou seja, era s.e.g.r.e.d.o, entende?], disse que adorou me conhecer, que minha alma transcendeu com a dele, que uma pessoa como eu não merece andar solta por este mundodemeudeus [ah, jura? camisa de força para mim, então, beibe] e agradeceu pelos conselhos dados, reiterando mil vezes que a força do meu pensamento [toda uma vibe menina superpoderosa no ar, sentiu?] fez com que ele e a esposa se reconciliassem tão logo suas pernas trocadas conseguiram a proeza de fazê-lo chegar em casa naquela ocasião.

Várias questões se perpetuam em proporções assustadoras na minha cabeça, neste momento da minha vida. O que minhas amigas colocaram no meu copo de Coca Zero enquanto eu disse que ia tomar um ar mas, na verdade, chorava escondido, sob pena de ser espancada na frente de todo mundo? Qual a procedência da água utilizada para a fabricação daquelas pedras de gelo, tão gélidas quanto alguns corações, que refrescavam minha garganta? Dancei? Não dancei? Caí? Ativei algum tipo de ímã de malucos bêbados trabalhados no pó quando comecei a blasfemar porque minha sandália havia arrebentado? Incentivei a pessoa a fazer sexo selvagem e escandaloso com a esposa na sacada do apartamento? Insinuei que a solução seria a separação imediata porque, olha colega, posso te oferecer duas amigas, à sua escolha, devidamente testadas e não tão descompensadas quanto eu? Que tipo de conselhos eu dei ao indivíduo que, é claro, estava num estado mais deplorável do que o meu, para levar a sério as palavras de um alguém que está na atual conjuntura na qual me encontro?

Aparentemente fui vítima de alguma sabotagem, já que me recuso a crer que o fundo do poço seja alardear um endereço de e-mail para desconhecidos suspeitos. Não pode ser, deve haver algo mais. Suponho que o fundo do poço seja mais fundo do que posso imaginar. Preciso desta suposição para continuar caindo, levantando, caindo, levantando. Não admito que tudo se encerre com duas mensagens recheadas de palavras de incentivo, de clichês arranhados e de histórias de vida de um indivíduo que mal conseguia soletrar o próprio nome e que deve ter chorado litros na frente de três mulheres. Alguma delas fez isso comigo e o porquê me escapa à compreensão [afinal de contas, não sou de todo má, tenho certeza], de modo que a única coisa que posso fazer é encaminhar para elas as mensagens de apoio psicológico e nunca, nunca mais, beber tanta Coca Zero...