Esta é a terceira tentativa que estou fazendo para me dirigir a você de alguma outra maneira que não seja escrevendo "puxa, como você foi sacana comigo!" É verdade. Nas outras duas vezes comecei explicando que não tinha outra maneira de me expressar, a não ser escrevendo sobre o quanto você foi sacana comigo. Eu queria te mostrar os rascunhos, mas não acho que mereça ler além daquilo que mostro, por opção. Você foi só mais um. Mais um que acrescentei à minha vida, mais um que colecionei, mais um do qual estava louca para me livrar, para ser sincera. Agora já não sei mais se foi mesmo um sacana. Será? Por que sacana? Por tentar testar minha paciência, me fazendo chegar ao limite máximo da convivência pacífica com criaturas que nem sequer consigo chamar de seres humanos? É, pode ter sido muita sacanagem sua mesmo que, me conhecendo como me conhecia, sabia que eu não passaria num teste deste tipo. Se era para me dar algum tipo de lição, aprendi que para lidar com determinado tipo de... de... vai lá, de "gente", muitas vezes precisamos descer ao seu nível, falar a sua língua, nos fazermos entender na marra e, por fim, respirarmos aliviados por não precisar mais lidar. Viu como aprendo depressa? Não lido mais. Ou talvez um sacana porque decidiu, sem me consultar, que seria uma boa me fazer sofrer, fazer doer, fazer arder e fazer morrer? Você fez morrer. Sacana por causa disso? Acho que não. Agora, te olhando de longe, entendo que às vezes é preciso que algo morra para que outras coisas aconteçam e, embora possa parecer o contrário, eu não seria capaz de matar, não seria capaz de arrancar uma erva daninha que me sugava a alegria de viver e me deixava apreensiva sobre minhas próprias atitudes, não seria capaz de virar as costas e simplesmente ir embora. Você matou. Para onde envio meus sinceros agradecimentos por aquela morte anunciada há tempos? É, sacana, eu tenho que agradecer. Pelas noites insones, pelos travesseiros encharcados, pela cara amarrotada, pela falta de apetite e, principalmente, pelo tempo. O tempo que me deu para que eu pudesse redescobrir a alegria de respirar sem sustos. Toma, leve de volta esses meus pseudos dons premonitórios, não preciso mais deles. Metade do tempo que passamos juntos foi o suficiente para que eu contasse as horas que perdia tentando adivinhar como você achava que eu devia me comportar. Na verdade, vá embora de uma vez. Só deixe o que me interessa: as frases que me fazem sorrir, a voz que me faz suspirar, essa vontade que me come por dentro e o desconhecido que tenho pela frente. Só mesmo um falso sacana para me fazer viver seis meses achando que eram os melhores que tinha para viver e, de repente, girar meu mundo de cabeça para baixo sem que eu esperasse. Que vergonha, hein? "Tome este daqui, experimente o que é ser leve, volte a sorrir sem medo, acho que este é o seu número, menina". Posso até ver o seu deboche enquanto sussurra estas coisas no meu ouvido. Então vá embora logo, preciso te enterrar, você que fez morrer. Já estou vendo o outro ali, me olhando atrás da porta, doido para me atropelar com a pressa dos que são novos. E sabe o que mais? Está tudo tão bom que, pela primeira vez, não me atrevo a pedir nada. Vou levar comigo o que já tenho e esperar somente que aquilo que já é bom permaneça, pois sei que só poderá ficar melhor. Adeus, 2010. Não é nada pessoal, mas... você já está indo tarde.