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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

[Quase Amor]

Ele espreme meus pensamentos como se tivesse minhas coxas entre as mãos. Ele arranca as palavras da minha boca como se elas fossem uma peça cheia de botões, difícil de se desfazer. Ele amassa minhas certezas como se fossem fotografias de amores que não deram certo. Ele devora meus desejos como se estivesse comendo sua sobremesa preferida, debruçado sobre meu ventre. Ele confunde minhas ideias e embaraça meus pensamentos enquanto acaricia meu cabelo e ri do meu deboche. Ele me toma às pressas, antes que eu fuja com o mapa dos meus tesouros e o deixe para trás, sozinho. Ele me invade, me preenche, me reparte e me divide em pedaços pequeninos, para que eu caiba no seu bolso, no meio das folhas do seu caderno, entre um minuto e outro dos seus dias, no lado direito da sua cama e no esquerdo do seu peito. Ele lambe minhas cicatrizes e molha minha boca com a ânsia dos inocentes. Ele quase me irrita, por desconhecer o poço sem fundo para o qual está nos levando, com a sede dos que quase me querem, sem querer.

segunda-feira, 26 de março de 2012

[Arrogância]

Do alto do seu pedestal, Arrogância finge me ignorar, do mesmo jeito que eu fingia acreditar nas frases feitas e nos eu te amo baratos escritos no espelho embaçado que poucas vezes me viu sorrir. Se ousasse me encarar de frente, Arrogância se assustaria com o vermelho do meu batom e com meus modos de puta contida, tão diferente do tipo de puta que, agora sei, Arrogância prefere. Se conseguisse se mexer, tenho certeza que Arrogância cobriria os olhos com uma das mãos e gozaria para mim com a outra, assim que as luzes da cidade refletissem minha silhueta diante de si. Arrogância, no entanto, não pode se mexer. Arrogante demais para ensaiar um passo fora do seu pedestal, entregue ao vento e à escuridão das noites sem luar, não quer se mexer. Arrogância se parece com uma velha cafetina que, não podendo me dar os prometidos finais felizes, me entregou aos homens que me chupam e me fodem enquanto recito poemas de amor. Sei que Arrogância pode me ver pulando o muro que nos separa. Do alto da sua ignorância, Arrogância pode tudo. Pode me ver tirando a calcinha e me esfregando no seu coração de concreto. Se não fosse tão soberba, eu poderia sugerir que abaixasse a cabeça e me visse trepando com amores que não durarão para sempre. Conheço o tamanho do vazio que Arrogância carrega dentro de si e que, às vezes, transborda pelos seus olhos, pela sua boca e até pelos seus bolsos. Arrogância, no entanto, é fraca demais para me encarar como inimiga e prefere me xingar em pensamento com palavrões que só fazem me excitar. Encravada no seu pedestal, Arrogância insiste na desequilibrada pose dos medrosos e na falsa classe dos imbecis. Humildemente, Arrogância, peço licença para pichar um covarde em tinta vermelha, no seu pedestal triste e solitário, lambendo o contorno das minhas letras com a língua que você, tão arrogante, agora só pode ver no céu de outras bocas.

quarta-feira, 7 de março de 2012

[Palmadas]

Ainda sobre aquela coisa de estar disposta a levar umas palmadas para ver se aprendo um pouco das coisas da vida, não custa nada deixar registradas as minhas exigências: de quatro, mãos masculinas boas de pegada, qualquer coisa de selvagem, gemidos, alguns puxões no meu cabelo e meu nome sendo repetido com diferentes entonações, acompanhando o vaivém dos corpos suados.

[Se fossem apenas umas palmadas - dadas por qualquer um e de qualquer jeito - não seria eu, né?]

sábado, 20 de agosto de 2011

[Strip*]

*escrito a quatro mãos, duas línguas e um só pensamento

Quando cheguei em casa, chamei por minha mulher, como sempre faço; porém, não tive resposta. Podia ouvir uma música baixa ao fundo, tão baixa que não conseguia decifrar qual era. Deixei minha mochila com as coisas do trabalho em cima da mesa, chamei-a novamente e coloquei o paletó sobre uma das cadeiras. Caminhei até meu quarto e percebi que a música se tornara mais próxima. Vi a porta entreaberta e, enquanto a empurrava, fui alargando um pouco a gravata. Ela me esperava na cama, com várias velas acesas ao seu redor. Ao me ver, sorriu como se aquele sorriso explicasse o que acontecia, empinou a bunda para mim e, delicadamente, aumentou o som. Maybe she's a devil in disguise. E eu ali, parado ainda, segurando a porta.

... hoje eu quero respirar você...

Levantou-se, caminhou até a minha direção e me puxou pela gravata. Quando eu ia beijá-la, pôs o dedo indicador entre nossos lábios e inclinou-se um pouco pra trás. Tirou minha mão da sua cintura e levou-me até uma cadeira, propositalmente colocada de frente para a cama, me fazendo sentar. Colocou os joelhos sobre minha coxa e me pediu para que, a partir de então, eu não movesse um músculo. Consenti com a cabeça, ela se virou e caminhou de quatro até o centro da cama. Começou a rebolar sem olhar para mim, ao som de Hendrix. Will I be truthful, yeah, in choosing you as the one for me? Ela brincava e rebolava enquanto abria sua blusa, ainda de costas. Mostrava os ombros e beijava-os, como eu pedia para fazer.

 ... é assim que você gosta?...

Jogou o cabelo, do jeito que sempre jogava, no balanço da música que eu adorava. But you and I, we’ve been through that. Colocou a blusa novamente, deixando-a aberta. Virou-se para mim, olhando fixamente nos meus olhos e, de quatro, encostava seus peitos na cama. Quando ficava com o queixo na cama, me olhando, dava para ver sua bunda bem alta e, ainda de calça jeans, começou a desabotoar e tirar aquela peça, rebolando. Pude ver sua calcinha rosa com renda, cavadinha. Can you see me? Diversas vezes brincava de tocar guitarra e balançava o cabelo. Tirou sua calça e ficou deitada, de pernas para o ar. Acho que ela ria - escutava pouco, mas acho que ria.

... duvido que descubra o que se passa na minha mente agora...

Aproximou-se mais de mim, de joelhos na beira da cama, escondendo a calcinha com as mãos e me olhando provocantemente. Sentou-se e começou a me tocar com os pés. And then she spread her wings high over me. Começando pela canela, foi subindo. Joelho, foi subindo. Acariciou minhas coxas com os dois pés, foi subindo. Tocou meu pau e, nessa hora, tive que me ajeitar na cadeira. Ela fez que não, como se dissesse não a uma criança ou a um animal. Ainda brincando com os pés e meu pau, achei que ia explodir dentro da calça. Foi subindo, tirou minha camisa de dentro das calças e, com dificuldade, afrouxou meu cinto. Once upon a time you dressed so fine. Tirou minha gravata, arrancou meu cinto e jogou longe. Virou de costas e rebolou descendo, até ficar quase no chão, e subiu empinando a bunda na minha cara. E eu ali, louco de tesão. Começou a brincar de ameaçar sentar em mim, afastou-se um pouco, tirou a blusa e ficou só de lingerie. Minha mulher se ajoelhou, colocou as mãos sobre minha coxa e abriu minha calça.

 ... eu vou te dar o que você quer...

Quando abaixou um pouco minha cueca, meu pau saltou para fora. Com as mãos, acariciou e logo começou a me chupar gostoso, enquanto eu puxava seu cabelo, até que ambos não agüentávamos mais de tesão. What ever it is that girl putt a spell on me. Depois que tirei seu sutiã e a abracei forte para sentir seus peitos junto a mim, ela se esfregou no meu corpo. Apalpei sua bunda enquanto chupava e beijava seu pescoço, puxando-a para mim. Ela gemeu baixinho. Tirou minhas mãos, subiu-as até sua cintura, afastou-se me empurrando com uma mão, subiu na cama de quatro, foi até o centro novamente, deitou e, depois de puxar a calcinha, sussurrou um amor, esqueci isso aqui, tira pra mim? que fez meu corpo todo responder. Achei que estava na hora de fazer uma surpresa e foi então que a puxei e deixei de pé, com o corpo colado ao meu, avançando até uma parede.

... me fode gostoso, amor...

Eu a beijei e, conforme ia descendo sua calcinha, beijava seu corpo. Segurei seus peitos e os chupei. Ela gemeu novamente. I'll stay with you darling now. Virei minha mulher de costas, imprensando-a na parede, e ela se deixou espalhar, empinando a bunda e rebolando no meu pau. Enfiei por trás em sua buceta e podia ver seus peitos roçando na parede, o que a deixava louca de tesão. Pus uma mão na sua cintura e a outra no seu ombro. Quando estava perto de gozar e meu pau prestes a explodir, notei que ela estava na ponta dos pés, empinando ainda mais o seu rabo, de propósito. Coloquei-a de frente para mim e a encarei. Desci com o rosto pelo seus peitos e a levantei pelas pernas. Ela agarrou-se ao meu pescoço e me olhava com um sorriso provocante. And I said fly on my sweet angel. Comecei a meter meu pau com mais força só para ouvi-la implorar por mais.

 ... nunca mais se afaste de mim...

E cada vez que ela pedia, gritava meu nome, a parede tremia e me deixava mais louco de desejo. Não demorou muito e estávamos gozando. Coloquei minha mulher na cama. Cansados, ofegantes, suados. Assim que deitei, ela montou e mim e beijou minha boca. Abaixei o som, para que pudéssemos ouvir nossa respiração. Maybe she's a devil in disguise, Hendrix repetia, baixinho, mas, no fundo, eu sempre soube...

... maybe she's a devil in disguise...

domingo, 24 de outubro de 2010

[Ilusão]

[Olha só. Lá vem ela outra vez, se insinuando entre nicotina e vodka, desengonçada em seu salto quebrado. Ilusão está achando que será como das outras vezes, tenho certeza. Tonta o suficiente para usar as mesmas armas na esperança que eu me desarme e abra minhas pernas na parede escura da noite nua como da última vez. Ilusão é uma vadia velha de maquiagem borrada que carrega uma bolsa de tecido sujo a tiracolo, onde guarda minhas fodas misturadas aos meus rabiscos. De tanto ler minhas memórias e gozar sozinha, Ilusão decorou meus textos e a posição em que melhor me encaixo e agora vem de novo, insistente, me oferecer companhia para as noites quentes que curo dormindo sem roupa e com a janela aberta, na esperança que um vento gelado me jogue na parede e me penetre com a indecisão dos suicidas. Ilusão está aqui, posso sentir, cheirando na minha nuca o perfume que agora comecei a beber a goles gigantescos. Quero me livrar desse cheiro, presta atenção. Perfume de lençol amarrotado e gozo e gemidos e eu te amo baratos. Quer para você, invejosa? Ilusão é uma puta invejosa me oferecendo o sexo que não consegue ter e, quando se esforça, embrulha num pacote de laços mal feitos não só o sexo selgavem que me causa vertigem, mas uma pitada de palavras bonitas e umas mentiras disfarçadas de quase verdades nas quais, que merda, eu acabo acreditando. Só que eu aprendi, entendeu? Uma hora a gente aprende a escrever em linhas tortas porque tortos são os sentimentos. Uma hora eu ia aprender, Ilusão, que você gosta de me ver de quatro, soltando palavrões pela boca e queimando em brasa nas mãos que batem, que mordem, que apertam, que fodem meu corpo como você gosta de foder minha vida. Quer me ver de quatro outra vez? Hein, Ilusão? Eu queria esperma de gosto diferente, você tem para me oferecer? Ah, não? Olhe direito o cardápio, incompetente. Um gosto diferente, não sei bem qual. Gosto de céu, talvez. Isso. Gosto de céu, para que eu possa engolir um pau duro e vomitar estrelas. Tem aí? Estou esperando, Ilusão, encostada naquela porra de muro onde já cravei minhas digitais e arranhei minhas costas. Não demora, sua vaca inútil. Estou esperando há muito, há tanto tempo...]

terça-feira, 11 de maio de 2010

[De Nós Dois]

[Ele me encostou na parede e enfiou sua língua dentro da minha boca, me obrigando a entregar as palavras que nem estavam prontas para serem ditas. Segurou com uma das mãos o meu cabelo e com a outra a minha cintura, enquanto mordia minhas sílabas e engasgava com meus acentos bagunçados debaixo da roupa. Lambeu meus parágrafos com a sede dos inocentes que se afogam enquanto viram minhas páginas amassadas de histórias de amor desbotadas. Foi embora tão atordoado quanto eu, levando consigo minhas frases feitas embrulhadas na calcinha que arrancou com os dentes, acho que para não deixá-las escapar. Ele só não sabe que guardei os rascunhos de nós dois. Ele só não sabe ainda que vai querer voltar]

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

[Engasgar]

[Ah, porra, eu engasguei mais uma vez! Tinha prometido morder minha língua assim que você viesse com aquele papinho de oi-tudo-bem-quanto-tempo-o-que-tem-feito e foi só me distrair com seu par de tênis para engasgar outra vez com as frases que venho ensaiando para lhe dizer desde que nasci de novo, desde que você me estendeu a mão naquela noite fria, achando que eu não passava de uma bêbada sentada no meio fio debaixo de um temporal. Engasguei com a saliva que estava guardando para cuspir ali, do seu lado, sobre os pedacinhos de fotografias rasgadas de orelhas, coxas e vaginas das vagabundas com as quais se deitou em todas aquelas vezes que te larguei com o pau duro para dançar, sozinha, em cima de uma mesa. Sempre gostei de te ver do alto, ao som de coros celestes, onde nunca me alcançarias, a não ser que eu descesse os degraus e me misturasse à nicotina e aos perfumes baratos que te rodeavam. Estava tudo tão bem planejado e você estragou tudo no instante em que abaixou a cabeça sem saber o que dizer. Fizesse qualquer coisa, menos mirar o chão que piso à procura de respostas escondidas em papéis de bala, porque desse jeito sinto vontade de me doar. Tropecei no asfalto enquanto caminhava na sua direção para tentar te salvar de mim mesma. Escorreguei no suor que queimava minhas tripas e minha carne encostada naquele muro imundo onde só as putas se esfregam. E engasguei com você, no escuro, quente e grosso, em mim]

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

[Esperança]

[Esperança é uma puta de quinta categoria vestida com roupas costuradas de retalhos dos meus sonhos. Uma vaca oferecida colada na minha sombra à espera de um tropeço meu nas ruas de paralelepípedos. Esperança tem inveja da minha meia calça desfiada e do meu rímel borrado que dão a sensação de noites bem aproveitadas em meio a línguas, membros suados e esquecimento. Esperança é barata demais e se oferece em postes onde me esfrego, ele me esfrega, nós nos esfregamos, deixando grudadas marcas de unhas e gozo. Esperança se alimenta dos restos que deixo pelo caminho. De tão faminta, me compadeço dela e a deixo ficar. É quando ela começa a me corroer como se fosse um verme invisível, sugando meus desejos para si e me devolvendo este vazio que uso como acessório no cabelo. Esperança me cega com seu falso brilho e eu invento óculos que não escondem as letras que deixo escorrer. Esperança me fode inteira como se eu fosse uma virgem idiota que se apaixonaria pelo seu algoz. E ela consegue. Esperança me mantém de quatro enquanto vejo mar azul e não me atrevo a molhar os pés, enquanto ouço sinfonias inacabadas e permaneço rouca demais para gritar meu refrão. Esperança me amordaça e me amarra até fazer sangrar meus punhos, talvez desejando que eu agradeça por tê-la tão perto de mim. Esperança é uma vadia insensível que não consegue entender que assim que conseguir me desamarrar, vou tomar o seu lugar. Ao invés de ser qualquer coisa entre amiga e desconhecida, faz questão de me manter cativa, e isso só aumenta meu desejo de ser minha própria Esperança, ocupar seus postes e enterrá-la no sótão das minhas lembranças, misturada aos amores que não me servem mais e de onde nunca mais sairá para aproximar-se de mim]

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

[Amor]

[Amor arrancou minha blusa com voracidade antes de morder meus mamilos só para me ver com os olhos revirados de desejo enquanto cravava uma faca afiada em meu peito. Amor senta-se na minha frente com o rosto apoiado nas mãos para ver melhor a minha alma escorrendo em vermelho pelo chão. Acostumado a me ver de quatro diante de si, Amor pensa que só sei engatinhar. Amor acha graça da minha agonia e se alimenta do meu desespero até se fartar, sem saber que vou revirar seu estômago daqui a alguns instantes. Amor vai engasgar. Amor vai se afogar em vômitos. Amor vai me estender a mão. Amor vai pedir socorro. Estarei ocupada. Levantando. Sacudindo a poeira dos meus sonhos. Amor não sabe, mas eu sei morrer de mentira. E sei matar o Amor. De verdade]

terça-feira, 1 de setembro de 2009

[Despedidas]

Vem, anda. É agora que você aparece com as mãos nos bolsos e os lábios entreabertos quase deixando cair no chão de terra batida o estampido de um eu avisei com gosto de pólvora e vodka. Eu poderia tentar segurar as letras de um alfabeto incompleto e empurrá-las de volta para o céu da sua boca. Sim, eu poderia. Como naquela tarde em que você esperava alguma conjunção astral favorável para compor a música da sua vida e eu, distraída, tropecei nos degraus invisíveis do seu tórax nu e me deixei cair para dentro de você, lembra? Poderia sair engatinhando, catando minhas coisas, minha saliva, meus pensamentos, mas não, deixei tudo esparramado sobre você só para ter um motivo idiota que fosse para nos falarmos na fase seguinte da lua. E de fase em fase, depois de tantas mordidas em fronhas encharcadas de lágrimas, depois de tantos arranhões em discos repetidos, depois de tantos soluços sufocados no calor do meu sexo, é chegada a sua hora de me olhar na porra dos olhos e exclamar qualquer coisa que lhe dê a doce ilusão de que eu perco. Só que me perdi faz tempo. Eu me perdi em meio aos meus vômitos debaixo do chuveiro enquanto tentava acertar o ritmo da nossa canção, do mesmo jeito que meus desejos se perdiam com a água que levava tudo para o ralo: a minha voz rouca em meio ao barulho de buzinas e o meu tom seco em revide à sua impaciência, tudo, tudo para o ralo. Joguei para o fundo do meu armário de recordações todos os meus destemperos que, agora vejo, atrapalhavam suas pegadas e, mesmo não sendo o tipo de homem que gostasse de andar em linha reta, talvez você quisesse, uma vez que fosse, não precisar desviar dos meus lábios prostrados no meio do seu caminho. Seus desvios sempre terminavam em mim, aqui, bem dentro de mim. Então vem, anda. Estou esperando com a mesma calcinha que você queria guardar para si, com o mesmo perfume na minha nuca, com a mesma fome de quem come verbos intransitivos e escreve com batom vermelho metáforas no espelho embaçado do banheiro. Vem e não demora. Eu me ofereço à navalha que fez questão de afiar com seu melhor desdém só para te dar o gosto de se despejar em mim antes que eu desligue o telefone. E me desligue. Para sempre.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

[Dos Deslizes Teus]

Desliza as mãos pelo teclado como se elas estivessem vagando por entre minhas pernas. Encosta a cabeça na maciez do meu texto enquanto enfia os olhos na minha alma. Desdenha todas as minhas frases mal feitas, mas precisa lavar o rosto porque embaço a visão desacostumada aos meus delírios febris. Agarra minha cintura disfarçada de cadeira na esperança vã de que eu me encaixe no lugar de dores passadas. Disfarça um meio sorriso porque não pode demonstrar reações passionais para uma máquina. Lê minhas linhas outra vez e mais outra e cada vez mais devagar, fingindo que me arrasta pelos cabelos do mesmo jeito que arrasta a voz em súplicas roucas que não ouço do lado de cá.

Depois me vira as costas, se afasta e finge me esquecer, para voltar no dia seguinte, com o peito arfando, à procura do que ficou.

Para salivar entre meus parágrafos como se cada um deles fosse um trecho das minhas curvas. Como se eu fosse um texto fácil de ser decifrado. Como se eu pudesse me contentar apenas com salivas...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

[Se]

Se eu soubesse que seria assim, teria arremessado minhas insinuações com mais vigor sobre a mesa. Teria arrancado os botões daquela camisa com meus dentes. Teria ensinado o caminho reto e ligeiro que levaria as mãos a desembocarem no meio das minhas pernas. Teria cravado minhas unhas nas costas nuas com mais crueldade. Teria, por fim, derramado minha alma na boca aflita junto com meu gozo.

Ingênua que eu era, não previ que todas as minhas intenções encontrariam um freio nas mãos trêmulas, no tecido rendado e no barulho da multidão.

Acabei por me desfazer daquela calcinha de renda que só fez atrapalhar. Hoje ando sem. Ela. E você.

Se eu soubesse que seria assim, teria, por fim, derramado minha alma na boca aflita junto com meu gozo e meu te amo amordaçado.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

[Por Hoje]

Vou te contar um segredo. Que ele fique somente entre nós dois e o vão obsceno que desvendará o vaivém dos nossos corpos. Cansei de ser racional. Quebre minhas verdades e espalhe-as misturadas a pétalas de rosa sobre os lençóis. Arranque das minhas entranhas os gritos sufocados pelas noites solitárias. Só por hoje eu permito que decidas por mim. Que me puxes pelos cabelos ao me ver aos seus pés. E que banhes minha pele com o suor do seu desejo. Só por hoje quero ser presa fácil. Deixe tatuada na minha cintura a marca das suas mãos. Crave seus dentes em meus mamilos. Me ensurdeça com seus gemidos. Faça de mim sua refeição. Prometo ser obediente. E estar quente. Prenda minhas pernas ao redor do seu corpo e não me deixes escapar da mesa da cozinha. Olhe nos meus olhos como jamais olhaste. Quero ler através deles os poemas que você fez para mim. Assista sobre mim o instante exato em que me levas ao céu. Afague meu coração com toques suaves. Morda minhas pernas com volúpia. Faça com que sua língua se perca nas minhas curvas. Vamos sujar a casa de sensações e gozo. Depressa. Tenho sede de viver. Vamos errar as contas, perder a hora e esquecer compromissos. Sorrir de tudo. Só por hoje. E, quem sabe, amanhã também.

domingo, 7 de setembro de 2008

[Banquete]

Quero me virar do avesso só para você. Quero que me desejes com os olhos antes de encostar no meu corpo o seu sexo sedento. Vou aos poucos expondo minhas feridas misturadas aos meus órgãos sobre o lençol bagunçado da sua cama. Quero que você me coma aos pedaços e me mastigue entre seus dentes tantas vezes quantas forem necessárias para que percebas que não vou me desfazer por ti. Quero ser inteira porque te quero inteiro. Preciso ser inteira porque te quero inteiro aqui em mim. Quero que você arranque meus pedaços magoados e guarde-os embaixo do colchão. Vou lamber seu desejo escorrendo pelos meus lábios enquanto salivas pelas fatias de mim. Vou me banhar no seu suor e impregnar sua língua com meu cheiro. Derramarei minha alma no seu corpo nu até que estejas farto de tanto amor. Então você vai caminhar lentamente em direção à cômoda, pegará nossos corações, até então colados um no outro, e os recolocará nos seus lugares, com a mesma mão que me despiu, me tocou, me atravessou e me incendiou. Só farei questão do meu coração, intacto. E adormecerás com o rosto sobre meu ventre e os pés tocando as estrelas.